Ficar bem na fotografia

Agora, temos provas de que algumas decisões de Mark Zuckerberg têm vindo a prejudicar severamente o bem da comunidade. E outras só servem para ficar bem na fotografia.

As revelações de uma whistleblower acerca do Facebook confirmam suspeitas antigas de que a empresa prefere os dólares à segurança dos seus produtos. Mas isso não tira o mérito a Frances Haugen. Agora, temos provas de que algumas decisões de Mark Zuckerberg têm vindo a prejudicar severamente o bem da comunidade. Já outras só servem para ficar bem na fotografia.

Graças à atitude da ex-trabalhadora do grupo, podemos afirmar com boa certeza que o Facebook não tem feito o suficiente para mitigar alguns dos problemas que já conhecia, como o do discurso de ódio na rede social e o do impacto do Instagram na saúde mental dos utilizadores.

Hoje, é do conhecimento público que o algoritmo que escolhe o que cada um vê na aplicação está desenhado para maximizar o tempo passado a deslizar feed abaixo. Por si só, não seria um problema. É natural que uma empresa procure aumentar a rentabilidade para os seus acionistas.

A questão é que o centro de decisão do Facebook, além de estar concentrado numa só pessoa, tende a não olhar a meios para atingir fins.

Os documentos que Haugen publicou mostram que a empresa está consciente de que certas características do algoritmo do Instagram agravam sintomas de depressão, podendo conduzir ao suicídio. Isso acontece por via da comparação constante do próprio corpo com os “corpos perfeitos” nas fotografias, ou pelo medo de se ficar de fora das experiências positivas que os outros estão a viver.

Estes defeitos assentam em problemas complexos que não são fáceis de resolver. Veja só a dimensão do flagelo: entre 2005 e 2015, o número de pessoas a viverem com depressão disparou quase 20%. Existem hoje cerca de 300 milhões de pessoas com a doença, o equivalente a 4,4% da população mundial, de acordo com a DGS. Se é possível alegar que o Facebook pode ter tido alguma influência nessa subida, é mais difícil de acreditar que tenha sido o grande responsável pela mesma. Afinal, o Instagram só foi adquirido em 2012.

Mas Mark Zuckerberg e a sua equipa podem e devem fazer mais. Desde logo, a empresa tem de parar de tratar cada denúncia como um problema de relações públicas.

Quando experimentou – e bem – esconder o número de “gostos” no Instagram para medir o impacto na saúde mental dos utilizadores (sobretudo adolescentes e jovens), a empresa concluiu que a alteração pouco melhorava a vida das pessoas. Mas decidiu implementá-la na mesma, porque iria ser recebida “pela imprensa e pelos pais como uma forte indicação positiva de que o Instagram se preocupa com os seus utilizadores”, revela um dos documentos tornados públicos por Haugen.

Se os executivos do Facebook não estiverem dispostos a trabalhar de forma séria nestas questões, então, que entrem em cena os reguladores e os políticos. Ainda têm algum poder para forçar esta gigante a mexer-se.

Faltam ideias? Haugen até deu um exemplo de medida: obrigar o Facebook a tornar o feed cronológico. Imagina o que seria? Não precisa de imaginar: no caso do Instagram, só em 2016 é que deixou de ser assim.

Enquanto cidadãos e internautas, também podemos e devemos fazer mais. Uma atitude mais crítica pode ser um bom ponto de partida: da próxima vez que der por si a olhar para uma imagem no Instagram, interrogue-se qual é o motivo. Porque é que o algoritmo lhe mostrou esse post e não outro? E não terá o direito de saber?

Por vezes, a resposta é mais simples do que parece: o algoritmo da aplicação dá primazia às imagens que têm mais pele humana à mostra. É este o plano em que vivemos: para o Instagram e o Facebook, o que interessa é ficar bem na fotografia.

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