Gestão de Riscos – Ilações a reter desta Crise Pandémica

  • Miguel Ferreira
  • 25 Março 2020

Miguel Ferreira, National Sales Manager da broker internacional Nacora, faz uma primeira abordagem às consequências do Covid-19. Apesar da surpresa, alguns riscos podiam estar protegidos.

Que ninguém tenha dúvidas: haverá uma vida antes e uma vida depois do surto COVID-19. Nada ficará igual. Todos, sejam individuais, empresas, países, devem assumir esta premissa como válida de forma a ajustarmo-nos a uma nova realidade.

Esta crise sanitária sem precedentes atingiu a economia global de uma forma muito incisiva e impactante. Uma das características que a torna mais perigosa que as demais foi a sua total imprevisibilidade e imediatismo, que levou a que a maior parte das empresas e países não estivessem minimamente preparados para um inimigo invisível, que atua de forma insidiosa e traiçoeira.

Os planos de contingência foram ativados sem que alguma vez fossem testados. É neste contexto que é realçada a importância, muitas vezes menosprezada pelas empresas, de uma eficaz gestão de riscos. Cada vez mais, a velocidade das mudanças leva a que a melhor análise preditiva já não seja totalmente fiável. As empresas conscienciosas têm de refletir que a existência de uma gestão de riscos é a linha que separa a continuidade da sua atividade da possibilidade da sua extinção.

Temos, cada vez mais, empresas portuguesas totalmente dependentes do exterior, seja a jusante ou a montante. O que per si é bom, uma vez que é o resultado de um trabalho de fundo de internacionalização que as empresas portuguesas operaram durante anos, numa crise como a que estamos a atravessar sem precedentes, existem muitas empresas que se deparam com obstáculos que nunca pensaram se debater.

O comércio internacional, principal motor do crescimento mundial, está a definhar sem que muito, neste momento, seja passível de reversão, pelo menos a curto prazo.

É neste contexto que algumas ilações deverão ser extraídas e que deverão servir de matriz para futuras ações.

De seguida, um pequeno compêndio de alguns riscos que se destacam com esta crise e que podem ser transferidos para um terceiro. Como será entendível, o auxílio de brokers especialistas em comércio internacional, torna-se vital para a correta identificação dos riscos e apresentação de soluções específicas.

Risco de crédito: Quem não utiliza deve repensar a estratégia

É expectável que hajam insolvências derivado desta crise pandémica, seja pelo encerrar de atividades, pelo abrandamento económico, pela dificuldade de tesouraria que muitas empresas irão enfrentar a breve trecho. De forma simplificada, as Apólices de Seguro de Crédito permitem que havendo um default das empresas clientes, sejam ressarcidos por parte das Seguradoras até ao máximo da percentagem de cobertura contratada. Refira-se que as Seguradoras de Crédito, de forma proativa e transversal, decidiram alargar os prazos para prorrogação nesta crise sanitária, permitindo as empresas internalizarem o natural atraso nos pagamentos que derivam desta. Estas Apólices ganham uma particular relevância no comércio internacional, não só no momento da indemnização, mas também na monitorização dos clientes. Quem neste momento possui um instrumento de mitigação deste género, terá mais uma ferramenta que lhe permitirá absorver o impacto financeiro desta crise. Quem não tem, poderá estar na altura de repensar a estratégia.

Risco de Transporte e danos consequenciais: Boa resposta às incertezas

Esta crise levou a atrasos consideráveis na entrega dos bens, com clara incidência nos portos a operar com fortes limitações, linhas aéreas suspensas, fronteiras terrestres fechadas.

Tais constrangimentos têm levado à supressão de linhas de produção no caso de materiais importados que não chegam atempadamente, bem como clientes que não receberam o bem pelo qual pagaram.

As paragens de linha de produção por falta de matéria prima é um dano consequencial e muitas vezes pode ou não estar abrangido por apólices de Responsabilidade Civil. Muitas empresas elaboram contratos bilaterais em que exigem a contratação deste tipo de Apólice, com a vertente de “Produto” incorporada, de forma a que estas situações estejam salvaguardadas. Entender o impacto financeiro que tal poderá acarretar e transferir este risco para soluções disponíveis no mercado é algo que qualquer empresa deverá perspetivar, de forma a que crises como esta sejam mais fáceis de ultrapassar.

É certo que o ICC-A, clausula prevista no Seguro de Transporte de Mercadorias, não alberga os atrasos na entrega. No entanto, a possibilidade de devolver os bens à origem, de haver um dano decorrente de uma greve ou mesmo de uma rebelião, desde que devidamente contratado no momento da subscrição minimiza sempre o prejuízo, o que poderá muito bem ocorrer nos tempos atuais. O Seguro de Transporte de Mercadorias é uma boa opção, permitindo uma maior proteção do interesse segurável, mercadoria importada ou exportada, na incerteza do panorama internacional. Além do mais, é importante neste momento, a correta negociação dos termos de compra e venda (incoterm®) de forma a que a responsabilidade de cada uma das partes vá ao encontro dos interesses de cada um.

Risco político: Empresas e cargas apanhadas no turbilhão

Algumas tomadas de posição de alguns países no sentido de um maior protecionismo assusta bastante quem navega nos mares revoltosos do comércio internacional. Esta crise sanitária leva a que alguns produtos ou bens sejam confiscados, com o argumento de saúde pública. Sem dúvida compreensível, mas várias empresas podem ser apanhadas no meio deste turbilhão, sem expectativa viável de saírem tão cedo. Ficam sem o bem e sem o valor do mesmo. As Apólices de Seguro de Crédito, desde que negociado previamente, podem absorver o risco político, o que as torna, mais uma vez, um instrumento eficaz de gestão de risco;

Risco de Gestão: D&O é garantia para decisões em cenário incerto

É certo que nestes momentos de tensão, os decisores das empresas têm que tomar opções de forma rápida e acertada. As Apólices D&O (Directors and Officers liablity) são uma proteção adicional que os gestores poderão ter sobre a sua própria sociedade bem como sobre terceiros. Se houver, por algum motivo, uma gestão menos conseguida, com claro prejuízo sobre terceiros ou que infligem diretamente a sociedade, poderá ser exigida uma indemnização ao tomador de decisão.

Risco cibernético: Começa a ser exigível a qualquer empresa

As bases de dados das empresas estão cheias de informação sensível; É enfatizado, neste tempo de forçada quarentena, o papel do teletrabalho. Prevê-se que as empresas estejam conscientes dos riscos de um ataque cibernético, ainda por cima nesta altura em que a tecnologia é basilar, mesmo nas interações pessoais. As Apólices de risco cibernéticos conseguem mitigar este risco, no entanto, existe um trabalho a montante que deve ser feito pelas empresas, seja pela prevenção, boas práticas e a existência de um departamento de IT capacitado. Sejam também pelos planos de prevenção aí patentes, seja pela capacidade de responder a algum dano desta natureza através dos custos de investigação, custos de notificação, custos de defesa, uma Apólice de cyber risk é algo que começa a ser exigível a qualquer empresa.

Estes são alguns exemplos dos riscos que esta crise deixa a nú. Se algumas empresas já possuem uma gestão de riscos profissional, outras haverá que só agora entendem a importância de tal.

Os efeitos do Covid-19 só serão percetíveis através do saldo das atividades que se vão perder e do quanto destas poderá ser recuperado mais tarde. Fica assim patente que muitas vezes aquilo que entendemos como supérfluo, nestas crises são peças fundamentais. Quem tem alguma destas soluções, sabe a tranquilidade adicional que possui neste momento. Quem não tem, provavelmente percecionará estas soluções como vitais no futuro.

Se é verdade que a situação atual é delicada, não menos verdade é que o futuro vai ser brilhante…

  • Miguel Ferreira
  • National Sales Manager em Portugal da Nacora - International Insurance Brokers

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