Hora de ligar as rotativas do BCE sem limites

É tempo de imprimir moeda e distribuí-la pelos países. Consequências negativas? Não as vejo. Positivas? Manter as empresas e as pessoas ligadas à corrente.

Vou direto ao assunto: vivemos uma crise de saúde gravíssima, que afeta todo o mundo, e que está a levar ao ‘shutdown’ quase total da economia global como remédio para tentar conter o contágio do Covid-19 enquanto não é descoberto um tratamento eficaz ou uma vacina.

É um choque externo, em resultado do qual o mundo se verá confrontado com a maior crise económica de que há memória nas últimas décadas, talvez ao nível do que se passou com as I e II Guerras Mundiais e fazendo com que crises anteriores, de que nos lembramos, possam ser consideradas “brincadeiras de crianças”. Com consequências imprevisíveis a todos os níveis.

Neste contexto, ninguém – nenhum país ou continente – tem responsabilidade (não existindo, por isso, ‘moral hazard’, ou risco moral), nem estou a ver que existam pressões inflacionistas escondidas ao virar da esquina.

Onde quero chegar? Aqui: com a dimensão da “coisa”, só há uma forma de manter a economia viva (pessoas e empresas), até que surja a retoma, seja lá quando for. E essa forma é injeção de liquidez ilimitada na economia. O que, evidentemente, só os bancos centrais, devidamente coordenados com os respetivos governos, poderão levar a cabo. É isso que o Fed, nos EUA, tem vindo a fazer (complementado com atuação do Governo) e no Reino Unido, o Banco de Inglaterra também (só assim foi possível a Boris Johnson anunciar que iria pagar 80% das remunerações a todos os trabalhadores afetados pela crise), por exemplo. Puseram as rotativas a funcionar.

E nós? Portugal pertence à Zona Euro – logo, a emissão de moeda não compete ao Banco de Portugal (como sucedia dantes, com o Escudo), mas sim ao Banco Central Europeu, que emite moeda para todos os 19 países do euro. Que têm níveis de endividamento diferentes, uns mais, outros menos.

Ora, sem dispor de política monetária autónoma, se cada país atuar por si, com a quantidade massiva de recursos que tem que ser injetada nas economias, os países mais endividados, grupo a que Portugal pertence, não morrerão da doença, mas poderão morrer da cura – porque quando a epidemia estiver controlada, haverá um qualquer analista financeiro que, em Londres ou Nova Iorque, olhará para estes países e alertará os investidores para os riscos de neles investirem.

Resultado: as taxas de juro começam a subir e o crédito a fechar-se… Onde é que já vimos isto? Uma reprise de 2010-2011, com um resgate a bater-nos à porta e doses adicionais massivas de austeridade. Sucede que, nos últimos 7-8 anos temos vindo a reduzir o défice e a dívida – e até, hellas!, atingimos um excedente orçamental no ano passado.

Portanto, solidariedade precisa-se, venha ela sob a forma de Eurobonds (ou Coronabonds, mutualização de dívida europeia, emitida pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade, mas sem contrapartidas, porque não há ‘moral hazard’, e que acabará por ser comprada pelo BCE), ou – o que prefiro, confesso, porque é mais simples – sob injeção direta de liquidez pelo BCE, proporcionalmente, e em doses massivas, aos Governos dos respetivos Estados-membros, que se encarregarão de os distribuir de forma justa pelos afetados pela crise (empresas e pessoas).

O chamado ‘hellicopter money’. Para uso exclusivo de medidas de combate aos impactos negativos resultantes da pandemia. E, se se quiser, até impondo um limite para cada país, por exemplo, 20% do PIB (valor já admitido de ajuda monetária e orçamental nos EUA). É preciso mudar os estatutos? Mude-se os estatutos! Para grandes males, grandes remédios…

É, portanto, tempo de ligar as rotativas em Frankfurt 24-sobre-24 horas, imprimir moeda e distribuí-la pelos países. ‘As simple as that’. Monetarização dos défices e das dívidas? Sem dúvida. Consequências negativas? Não as vejo. Positivas? Manter as empresas e as pessoas ligadas à corrente e prontas para trabalhar quando chegar a retoma. Pressões inflacionistas? Nem vê-las… ‘Moral hazard?’ Não existe…

Se não é nesta ocasião excepcionalíssima que a Europa adota medidas excepcionalíssimas e se mostra solidária, então quando será? Se se mantiver a repugnante relutância em atuar desta forma, é o próprio projeto europeu que fica em causa. A Zona Euro e a UE podem acabar se não se mostrarem à altura desta crise.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

  • Colunista convidado. Presidente do Conselho de Administração da TAP

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