Lage, o Benfica e a política

Depois do previsível desaire, PSD e CDS têm praticamente o mesmo tempo até às legislativas de outubro que Bruno Lage teve para transformar um campeonato quase perdido numa vitória memorável.

Os portugueses (lamentavelmente uma minoria) vão votar este domingo para as eleições primárias das legislativas a que normalmente se chama europeias e arrisco dizer que a maior parte não tem consciência em quê. Em que projeto, em que ideias para a Europa e para o país, em que causas? Não sabemos. Sabemos que os candidatos continuam a fazer campanhas do século passado com beijinhos em feiras e mercados, mas principalmente nos partidos “mainstream” temos dificuldade em perceber que causas concretas defendem.

Esta situação é especialmente grave no centro direita, representado pelo PSD e CDS. As sondagens parecem refletir isso. Se já estava complicado entender o seu caminho alternativo, ficámos ainda mais confusos quando os vimos a apoiar a luta de Mário Nogueira e a estenderem uma passadeira vermelha para António Costa reforçar o eleitorado que decide eleições: o do centro.

Como eleitor deste espetro, gostaria de ver mais convicção na defesa dos cidadãos que não integram corporações de funcionários públicos e que têm sido colocados em segundo plano nas prioridades da geringonça. Mais do que críticas inflamadas ao “ilusionismo” de António Costa, à sua maior ou menor honestidade política e às relações familiares em que todos parecem ter telhados de vidro, talvez fosse mais interessante ver este centro direita a defender um caminho alternativo e concreto, por exemplo, em relação às múltiplas investidas do Governo e seus apoiantes sobre a propriedade e iniciativa privadas.

Veja-se a mais recente lei que agrava brutalmente o IMI sobre imóveis devolutos de particulares, incluindo meros apartamentos. Recorde-se o “imposto Mortágua” e as intromissões na liberdade privada no mercado de arrendamento. E o que dizer da mais alta carga fiscal de que há memória sem contrapartida em investimento público? Pelos vistos, muito pouco. O que nos faz ter a sensação de que, na realidade, o centro direita tradicional não acredita muito que há uma verdadeira alternativa, para além de uma mera mudança de rostos de poder. Isso é preocupante e, não é por acaso, que seja à direita que estão a emergir novos partidos com ambição de fazerem neste lado o que o Bloco fez à esquerda.

Como bem disse Bruno Lage perante uma multidão de benfiquistas em festa no Marquês de Pombal, temos que ser tão exigentes nos outros aspetos do nosso Portugal como somos com o futebol. Ele falou da saúde, economia e educação. Eu acrescento a política. Temos que ser mais exigentes em relação aos nossos políticos, pedindo-lhes mais projetos e menos politiquice ao sabor de vazias agendas mediáticas que rapidamente se esfumam.

Como benfiquista assumido que sou, Bruno Lage é o meu herói desportivo de 2019. Transformou lata em ouro. Mas, mais do que isso, o seu discurso é uma lufada de ar fresco para um futebol esgotado de palavras azedas e absurdamente bélicas. Promove uma cidadania responsável e rapidamente demonstrou que não é preciso ser fanfarrão para se ter atenção. Com inteligência e humildade, conseguiu fazer sobressair as suas qualidades técnicas e humanas de liderança, com resultados comprovados.

Em detrimento de gritos e críticas cegas contra árbitros e adversários, Lage optou por dizer alguma coisa que pusesse as pessoas a pensar. A sua liderança promoveu uma cultura de exigência e meritocracia, que aposta na juventude sem desprezar os mais velhos e em que “todos contam”.

Depois do previsível desaire deste domingo, PSD e CDS têm praticamente o mesmo tempo até às legislativas de outubro que Bruno Lage teve para transformar um campeonato quase perdido numa vitória memorável. Talvez fosse boa ideia aplicarem à política a tática de Lage no futebol.

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