Libertem os portáteis aos miúdos

Os alunos que recebam computadores do Estado estão proibidos de instalarem software nas máquinas. Vale a pena reconsiderar esta medida, dando mais liberdade para que possam testar, errar e aprender.

Nasci no momento certo para quem gosta e trabalha com tecnologia. Pude experimentar o mundo sem smartphones e tenho assistido de perto à evolução da internet, com todas as suas vantagens e desafios.

Aos 10 anos, criei os meus primeiros sites e rádios online, testei os mais diversos programas, da edição de vídeo à edição de áudio. Tudo isto me ajudou a ser o profissional que sou hoje.

A minha família não é abastada, longe disso, mas fui um privilegiado. Tive um computador aos quatro anos – usado, a correr o Windows 3.1 –, fruto do acaso (uma prenda que me mudou a vida). Usei o Windows 95, 98, Me, XP, Vista, 7, 8 e estive na apresentação oficial do 10. Fundei blogues, passei dias a mexer em código e não tenho dúvidas de que essa experiência, e a liberdade de poder testar, errar e aprender, estão na base de muito do que sou hoje.

Vivemos um período de grandes dificuldades a todos os níveis. E isso não vai passar com o fim da pandemia. A Covid-19 não deixa só marcas naqueles que infeta. As suas impressões digitais vão ficar espalhadas em muitas áreas e por muitos e longos anos. É o caso do ensino. Que ninguém tenha ilusões: o efeito do fecho das escolas, medida agora incontornável, vai provar-se avassalador, pressionando os rendimentos médios desta geração que teve menos sorte do que eu quanto ao período em que nasceu.

O Governo está a fazer o que pode para tentar tapar as lacunas. Uma das medidas que lançou foi o programa Escola Digital, que prevê empréstimos de computadores portáteis aos alunos. Estão já 435 mil portáteis contratualizados (a ideia é pôr portáteis nas mãos de todos os alunos e professores), mas só foram distribuídos menos de 20% do previsto, por problemas na cadeia de fornecimento de chips e de outras componentes.

É discutível se o Governo podia ou não ter comprado os computadores mais cedo (só o fez a partir de novembro). Mas esta semana vieram a lume alguns detalhes sobre as condições associadas a estes empréstimos do Estado, quer do ponto de vista dos equipamentos, quer do ponto de vista da internet.

O primeiro aspeto prende-se com a quantidade de tráfego disponível. Quando consegui convencer os meus pais a instalarem internet em casa, só consegui que subscrevessem um pacote SAPO ADSL de 256 Kbps, com tráfego nacional ilimitado e 300 MB de tráfego internacional por mês incluídos. Era o suficiente para fazer downloads de pequenos jogos e demonstrações de programas e outras brincadeiras.

Hoje, os alunos com internet grátis emprestada pelo Estado (para alguns, a única ligação de que beneficiam) têm à sua disposição 12 GB por mês, limite a partir do qual a internet cai para uma velocidade de 2 Mbps, efetivamente a velocidade da ligação que eu tinha em casa há mais de uma década. Nessa altura, recordo, não havia videochamadas, a escola era presencial e, quanto a filmes e séries, só mesmo na televisão (analógica).

O segundo aspeto, apesar de parecer inócuo, é o que mais me preocupa: os acordos que estão a ser fechados entre pais e escolas para o empréstimo destes computadores proíbem estas crianças de instalarem software nas máquinas, pelo menos o que não for previamente autorizado pelo Ministério da Educação ou pelo agrupamento de escolas, como noticiou o ECO esta semana.

Não se compreende esta limitação. Se queremos uma nova geração mais digital e formada para o futuro, impedir a instalação e experimentação de software é um enorme tiro no pé na agenda digital do país.

Muitos jovens da minha idade são, hoje em dia, excelentes profissionais do setor da tecnologia graças à experimentação que puderam fazer no passado, numa altura em que não havia Facebook e o Google era um motor de busca do bem. Foi isso que lhes despertou o gosto pela tecnologia e os levou a enveredarem pela área – uma área que, ainda assim, enfrenta hoje uma forte escassez de profissionais qualificados.

Hoje, o Governo é forçado a investir em programas de literacia para miúdos e graúdos, num mundo que nunca foi tão digital. Naquela altura, com o privilégio de poder testar, errar e aprender livremente, formou-se talento para o futuro sem que isso tenha custado um cêntimo ao Estado.

Vale a pena reconsiderar esta proibição e aliviar as restrições associadas a estes empréstimos, como aquela que obriga os pais a pagarem o computador caso aconteça algo ao equipamento (todos sabemos que pode acontecer a qualquer um, por mais cuidado que se tenha).

Com tanto dinheiro a vir da Europa, há aqui boas oportunidades para se fazer a diferença e apostar num Portugal do futuro ainda mais digital.

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