Madonna e a política pimba

  • Fernando Sobral
  • 11 Janeiro 2020

Este Governo gostaria de ser pop como Madonna. É, apenas, um conjunto de baile desafinado que promove a política-pimba.

Madonna já foi a namoradinha de Portugal. Durante uns meses, Lisboa parecia uma “groupie” que desmaiava de comoção à sua passagem. Até o sr. Fernando Medina, coração bondoso para todos os ilustres que desejam ter uma janela de alumínio com vista para o Tejo, foi fazer-lhe uma comovente vénia ao hotel onde se instalara. Não foi comendadora por acaso. E, presume-se, não recebeu a chave de Lisboa, nos Paços do Concelho, por falta de agenda. A culpa não é dela. É de uma tendência para a reverência militante que nos empobrece. Não se sabe se Madonna já amuou com Portugal, mas nos próximos dias os seus vários concertos no Coliseu dos Recreios vão estar lotados. Ela merece.

Não nos podemos admirar. Se a sra. Cristina Ferreira, modestamente, não afasta a hipótese de ser Presidente da República, apesar da sua voz estridente, porque é que Madonna não poderia desejar algo mais? Quando lançou o seu tema “Holiday”, em 1984, perguntaram-lhe qual era a sua ambição. Ela respondeu: “Governar o mundo”. Hoje teria as condições perfeitas para o fazer, se pensarmos que temos como tenores personagens como o sr. Donald Trump ou o sr. Scott Morrison. Madonna sempre teve ambição. E curiosidade intelectual. Antecipou, como David Bowie, as tendências do futuro. Tornou-se uma diva numa era diferente, quando havia tempo para crescer. Foi sempre tudo: provocadora, política, divertida, excêntrica e um pouco louca. Na era do individualismo, soube vencer e convencer.

Foi muitas personalidades, tirou e pôs muitas máscaras, de “material girl” a deusa das discotecas ou a mãe ternurenta. Fez do confronto a forma de ser notada e, com isso, influenciou um par de gerações de mulheres de todo o mundo. Quis definir o espírito da sua época. Foi santa em “Like a Prayer” ou tudo o contrário, no livro “Sex”, lançado no auge da sua carreira. Colocou metade da América contra ela e outra metade a seus pés. Madonna descobriu como se chegava ao topo antes de todas as outras aspirantes. O modelo que criou (baladas que alternam com temas de convidam à dança, com espectáculos tentadores e cheios de sexualidade) é hoje copiado por todas as estrelas da pop e do R’n’B. Chegou ao Céu enquanto outros buscavam o caminho para sair da superfície terrestre. Louvada por quem gosta de música pop, ganhou estatuto intelectual. Ela é a definição perfeita da pura pop.

Madonna não tem a ver com o mundo de reverências e cumplicidades de que se faz Portugal. E com o populismo pobre de espírito, visível quando alguns quase aplaudiram os actos que vandalizaram uma obra de Pedro Cabrita Reis em Leça da Palmeira. Com argumentos sobre a “duvidosa qualidade” da obra. Deixando espaço aberto para a “revolta” contra gastos em arte. Ou em cultura.

Esta é a “ideologia pimba” que vai corroendo o espaço da cultura democrática, da criatividade e do pensamento. Sem espaço para a criatividade, Madonna não existiria. Só haveria cultura oficial e bem comportada. Mas é isso admira-nos neste Portugal de falsos “brandos costumes”? O país dorme. Bastou assistir à sonolenta cerimónia de abertura do ano judicial para perceber isso. Parecia um slow com danças fora de tempo. Dizia o presidente do Supremo Tribunal de Justiça: “os juízes podem trabalhar 24 horas por dia e 365 dias por ano que estes processos (os de grandes dimensões) continuarão a levar anos (até serem concluídos)”. O Governo responde com a canção do bandido: no OE prevê o aumento dos juízes, esquecendo-se de dotar verbas para o sistema judicial. Os complexos processos sobre corrupção poderão caminhar a passo do caracol.

Por aqui o Governo pode, vestido com trajes hippies, cantar “Material World” de Madonna. Louvando as minas de lítio, enquanto o preço deste desce 50% no mercado mundial, mostrando economicamente o equívoco do sonho. Mas tudo os diferencia. Madonna arriscou sempre. O Governo risca o ambiente. Aquilo que não pode ser reposto. Este Governo gostaria de ser pop como Madonna. É, apenas, um conjunto de baile desafinado que promove a política-pimba.

Sugestão da semana

“Apocalypse Now – Final Cut” é mais uma versão do filme de Francis Ford Coppola, que fica como um dos mais cativantes olhares do cinema sobre a guerra e, sobretudo, sobre a América. Para ver e rever.

  • Fernando Sobral
  • Jornalista

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