Marcelismos

Em Marcelo existem muitos Marcelos, um elenco de personagens que se vão sucedendo de acordo com as circunstâncias e com as audiências.

O Presidente da República promete que não vai ficar fechado em Belém. A sua claustrofobia política não lhe permite estar longe dos comentários, das intrigas, das verdades e das mentiras. Sendo um solitário e um homem de “afectos”, Marcelo precisa das multidões, dos microfones, da alta frequência e da alta velocidade. Esta permanente circulação é incompatível com a distância, a reflexão e a ponderação política que se exige a um Presidente da República. Para alguém que foi eleito sem um programa político para além da arquitectura dos “afectos”, é natural as oscilações de uma Presidência que se arrisca a ser tão brilhante quanto nula.

Em Marcelo existem muitos Marcelos, um elenco de personagens que se vão sucedendo de acordo com as circunstâncias e com as audiências. O drama político do Presidente é como encontrar o autor de tantas personagens, uma vez que as máscaras políticas se sucedem ao ritmo dos quadros de um teatro de revista. A preocupação é a popularidade, a escala universal de aprovação que indica qual a máscara e qual o discurso a adoptar. Os risos, os aplausos, as selfies, os abraços, os beijos, são a marca política de uma completa ausência da política. Porque existe o mito urbano do génio de Marcelo, o criador de factos políticos, o génio dos bastidores, o maior político da sua geração, uma vírgula na boca do Presidente é um discurso sobre o estado da Nação e o destino do Mundo. Mas não é. O grande talento do Presidente é a capacidade de todos os dias representar a peça “esta noite improvisa-se”.

A carreira política de Marcelo confunde a biografia com a auto-ficção, nunca se percebendo onde a realidade e o mito se juntam ou se separam, se alimentam ou se contradizem. Desde a imagem do homem que não dorme, passando pelas bibliotecas semanais de títulos recomendados mas livros nunca lidos, o percurso político de Marcelo é um enigma que desafia a gravidade – o político que falhou todas as ambições políticas acaba por chegar a Presidente da República sem programa, sem oposição e com o peculiar consenso da Nação. Tudo isto é destino e predestinação, a infalível marca dos Grandes Homens – de derrota em derrota até à vitória final.

No primeiro mandato como Presidente, Marcelo foi a suposta marca de equilíbrio de uma República inclinada para a Esquerda. Embora o Governo tenha feito tudo e mais alguma coisa com o beneplácito presidencial. A máscara da Presidência acabou por ser uma cumplicidade política com o Primeiro-Ministro, irmãos de sangue unidos por uma suposta estabilidade conferida por uma suposta “ideologia nacional” e sempre unidos a benefício dos portugueses e de Portugal. Para além da Esquerda e da Direita. A história acabou como se sabe, divergências à Esquerda, eleições antecipadas, Maioria Absoluta do PS. A máscara da estabilidade que o Presidente usou em muito contribuiu para o resultado eleitoral do PS.

Neste vazio surge o cidadão Marcelo com a máscara do Presidente e os discursos produzem um efeito dissonante, discordante, deslaçado. A coerência do discurso é mantida pelas convicções pessoais, uma concepção paternalista da Presidência e uma permanente “Conversa em Família”. O Presidente não deixou de ser quem é. Só que de tanto mudar a máscara, Marcelo está perdido na sua identidade política. A máscara que passeia pelo País tem as feições do cansaço e da depressão.

Carlos Marques de Almeida

Em tempo de segundo mandato, o Presidente da República está órfão da Nação. Deambula por Portugal em busca de um propósito político, em desespero por um desígnio nacional, uma marca política a imprimir neste mandato para registo e memória futura. Agora percebe-se que a consistência política do Presidente da República é um projecto alheio da autoria e na posse do PS. No intervalo das frases mecânicas, o Presidente parece que se aborrece em Belém, sem chama, fulgor, entusiasmo, vibração política. O inquilino de Belém é mesmo e apenas o inquilino de Belém, o cidadão eleito para a mais alta Magistratura da Nação e que parece que está esgotado no seu impulso político. Restam as funções de representação da República, o lado mais fútil e cerimonial do Regime – festas, fitas e fóruns.

Neste vazio surge o cidadão Marcelo com a máscara do Presidente e os discursos produzem um efeito dissonante, discordante, deslaçado. A coerência do discurso é mantida pelas convicções pessoais, uma concepção paternalista da Presidência e uma permanente “Conversa em Família”. O Presidente não deixou de ser quem é. Só que de tanto mudar a máscara, Marcelo está perdido na sua identidade política. A máscara que passeia pelo País tem as feições do cansaço e da depressão.

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa é o único titular de um órgão de soberania que pertence ao centro-direita. Em tempo de radicalismos e de populismos, eis um factor essencial para o saudável equilíbrio político da Nação. Sendo um prestigiado constitucionalista, Marcelo sabe que a Presidência da República é por excelência uma instituição que permite a projecção de uma hegemonia política suportada por um ascendente ético e cultural. Livre das incertezas do Executivo, garante da conformidade constitucional da Governação, Marcelo tem a inteligência e a capacidade política para criar um ambiente cultural que potencie uma nova lógica de acção política no cerne do centro-direita em refundação.

Não se sugere que o Presidente seja o líder da Oposição. Pelo contrário, a acção preferencial de Belém deve ser a de promover uma espécie de nova “constituição cultural” que possa vir a corresponder a uma nova visão política e social de um Portugal alternativo no âmbito do centro-direita. Na capacidade e na qualidade de mais alto Magistrado da Nação, queira o Presidente inventar a base para um novo e alternativo horizonte político.

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