Editorial

MEL com algum felpremium

O Movimento Europa e Liberdade arrisca-se a deixar de ser uma plataforma de ideias para ser um congresso pluripartidário, a pensar no poder.

O Movimento Europa Liberdade (MEL) vai promover mais um encontro nos próximos dias, desta vez sob o tema "Portugal e os portugueses: Reconfiguração social, política e económica para as próximas décadas". Juntará um punhado de pessoas com competências diversas, do melhor que o país tem na vida civil e com uma visão política que podemos situar no centro e direita do espetro político, soma algumas personalidades do centro esquerda e quatro líderes políticos, um dos quais André Ventura, do Chega. A esquerda, tão radical como Ventura, vocifera, quer impor agendas, as próprias e as dos outros, errando permanentemente nos argumentos.

Primeiro, uma declaração de interesses: Já participei em eventos anteriores, fui convidado para moderar um dos debates do encontro deste ano e só não estarei presente por impossibilidade de calendário face a compromissos anteriormente assumidos. Estaria presente, com ou sem Ventura, e portanto faria parte, com gosto, da lista que Louçã se esforçou para denunciar, tipo index (se tivesse poder para isso). As semelhanças de Louça com uma inquisição dos tempos modernos não é pura coincidência. E as suas críticas, a pressão sobre alguns dos convidados como Sérgio Sousa Pinto, a tentativa de transformar todos os que vão participar neste encontro em perigosos fascistas, só serve para extremar posições e valorizar Ventura (na verdade é o que o conselheiro de Estado quer, essa dicotomia de que se alimenta).

O MEL tem já um papel relevante na sociedade portuguesa, e isso mede-se pelos encontros que já promoveu e, sucessivamente, nas discussões que gera ainda antes da realização do evento de 2021. Os seus promotores -- particularmente Jorge Marrão e Paulo Carmona -- fundaram um movimento cívico, um think-tank, que defende a participação plena de Portugal na Europa num quadro de liberdade, e convocam, com regularidade, os líderes políticos a ouvirem as propostas que saem destes encontros. E como Portugal precisa disto quando os extremismos ganham espaço, quando até fazem parte de soluções de governo, quando influenciam decisões e nos atrasam (como sucede desde há seis anos, com a geringonça).

O desenvolvimento económico e social do país, a diminuição das desigualdades, a prosperidade e um aumento do nível de vida dependem de muitas coisas, mas dependem das liberdades para tomarmos decisões e da nossa integração europeia (não confundir com um federalismo à americana ou qualquer coisa próxima disso). O MEL tem promovido, desde o primeiro dia, este caminho, Mas há fel no MEL deste ano, e não é exatamente pelas razões invocadas pela esquerda, especialmente a radical e que não difere assim tanto do Chega (só que essa já está normalizada, já anda por cá há anos). André Ventura não é europeísta nem defende a liberdade (pelo menos a liberdade de todos, mas do que chama de portugueses de bem, o que quer que isso seja).

O que está escrito na página oficial do MEL, no seu manifesto, e que subscrevo: "Hoje, a principal divisão é entre os que defendem o progresso dentro do enquadramento social europeu e os que criam populismos fáceis, alimentando-se dos medos e dos receios do futuro num mundo em mudança. Em épocas de mudança, as categorias formadas em função do passado deixam de ser referenciais úteis para a avaliação das políticas". Não é possível dizer que André Ventura cumpre minimamente estes princípios. E poderia citar outros.

Assim, o que está André Ventura no encerramento do dia 25 de manhã (depois de um painel sobre a intolerância e o politicamente correto)? A escolha de Ventura para estar presente nesta conferência promovida por quem defende a Europa e a liberdade no encerramento de uma manhã de trabalhos e de discussão e não integrado num qualquer painel, para ser confrontado com as suas próprias contradições em matéria de Europa e de liberdades, dá sinais errados sobre o MEL e os seus objetivos originais. De um movimento cívico de promoção de ideias e propostas a uma plataforma de governo que quer federar o centro e as direitas. Todas, reconhecendo implicitamente que a direita liberal e europeísta tem de fazer o mesmo que fez Costa, vender-se à extrema radical, para vencer eleições. Tem de vender-se ao Chega. A um partido populista e anti-europeísta, que se juntou ao mais extremo dos grupos parlamentares no Parlamento Europeu.

Até poderá vir a ser uma verdade, a necessidade de trocar um extremismo por outro, um mal necessário para salvaguardar uma estabilidade política mínima (António Costa não cedeu ao BE e ao PCP nos aspetos essenciais da participação do país na União Europeia), mas o MEL deve manter-se um movimento cívico que trabalha para promover as ideias liberais e europeias, uma alternativa, sem populismos que se encontram tanto no BE como no Chega. O encontro deste ano -- no qual, volto a dizer, participaria -- está demasiado próximo de um congresso pluripartidário, mais tático do que estratégico, a olhar para as eleições que estão aí a chegar.

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