Milionários da exploração infantil

Pelo segundo ano consecutivo o canal de Youtube que faz mais dinheiro pertence a uma criança de oito anos.

O canal Ryan’s World valeu aos pais do seu autor a módica quantia de 28 milhões de dólares em 2018. É um exemplo perfeito da forma como as plataformas digitais estão a subverter a economia e conceitos aparentemente tão simples como o que é trabalho. Mesmo a definição de exploração de trabalho infantil está aparentemente aberta a debate.

Os canais do Youtube mais bem sucedidos têm crianças que produzem conteúdo regular, com contratos de patrocínio e publicidade diversa que atinge frequentemente os milhões de dólares. Pior, esse dinheiro não pertence às crianças, mas sim aos seus pais – que têm um estímulo direto para continuar a exploração. As situações de abuso de crianças no Youtube têm-se repetido, com condenações em tribunal a confirmar as acusações. Como de costume, a plataforma de vídeos da Google assobia para o lado e recusa responsabilidades.

A maior especialidade das plataformas digitais é a arte de contornar as leis existentes. E isto ocorre mesmo na Califórnia, que tem uma das leis mais exigentes do planeta no que toca a exploração infantil, que se aplica especificamente ao trabalho no mundo do espetáculo. Mas nada detém o imenso poder do Youtube, nem sequer a preocupação com os direitos das crianças – afinal, de que valem os princípios, quando o que está em causa é um retorno anual na ordem das dezenas de milhões de dólares, que alimenta a maior máquina de propaganda do mundo?

E esses mesmos princípios são também ignorados quando se pensa que os principais espectadores desses canais são também crianças. São elas que, graças ao autoplay, passam horas seguidas a consumir vídeos que muitas vezes promovem teorias da conspiração como o facto de que as alterações climáticas não existem e que os seres humanos são controlados por substâncias químicas espalhadas por aviões. Toda a estratégia de consumo destas plataformas baseia-se nos estímulos das casas de jogos, e há uma razão para o jogo ser proibido a menores – como o Wuant agora também já saberá.

O negócio de plataformas como o Youtube ou o Instagram consistem simplesmente na técnica de criar dependentes para continuar a vender globos oculares aos anunciantes. E não importa que sejam crianças: há anunciantes para todos os gostos e o que interessa é continuar a alimentar a máquina. Ainda há três meses o Youtube pagou uma multa de 170 milhões de dólares por apropriação indevida de dados pessoais de menores de 13 anos, valor que o Centre for Digital Democracy apelidou de “abominavelmente baixo”.

Ler mais: The Case Against Big Tech é o último bom livro de 2019 sobre a distopia provocada por Silicon Valley. A obra é da autoria de Rana Foroohar, analista económica global da CNN e colunista do Financial Times. Sem trazer grandes novidades no conteúdo, tem a vantagem de acrescentar uma abordagem regulatória ao problema. A conclusão, em especial, funciona como uma súmula perfeita do estado atual da perturbação que as grandes empresas tecnológicas trouxeram à economia e as consequências de não fazer nada.

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