Editorial

Mais 38 mortos e a ministra fica? Não nos faça rir… nem chorar

Mais uma tragédia, mais 38 mortos por causa dos incêndios. "Não me faça rir", pede o primeiro-ministro. Não fazemos, só queríamos mesmo que não nos fizesse chorar. A ministra ainda existe?

Depois dos 64 mortos em Pedrógão Grande, e já com um relatório independente nas mãos que certifica o que já sabíamos, isto é, o Estado falhou em toda a linha, mais um fim de semana trágico, agora com mais 38 mortos confirmados até ao momento. Não há desculpa, não há perdão político para tamanha tragédia. O país está desgovernado, é penoso ver a ministra e o secretário de Estado a balbuciarem razões que não explicam nada, a mostrar apenas uma irresponsabilidade, uma incompetência e uma incapacidade para gerirem uma crise de proporções inéditas. A culpa não é deles, a responsabilidade política, essa, é. Se o primeiro-ministro não (se) decide, nem com focus group, sobra a palavra presidencial. Vai chegar?

O que nos disse o relatório da comissão independente já era suficiente para a ministra retirar as devidas ilações. Além das causas estruturais, do problema das florestas, da natureza que, neste verão, foi madrasta, há todas as outras razões, as más, as partidárias ou por incompetência. A Autoridade de Proteção Civil – sem comandante oficial há mais de um mês -, as escolhas dos seus comandantes, a descoordenação operacional. Qualquer uma delas suficiente para o responsável político da pasta assumir as suas responsabilidades. Não assumiu, mostrou-se irresponsável, com a conivência, ou decisão, de António Costa. Ainda não leu o relatório, precisa de tempo para o avaliar. A sério!? E o pedido de desculpa, em nome do Estado? Deu-o o ministro das Finanças pela ministra.

Passados meses, a mesma cena. Trágico. O desespero dos cidadãos, a impotência, a resignação. Um fim de semana que seria, previsivelmente, difícil, com temperaturas anormalmente elevadas para o mês em questão. Tanta tecnologia, drones, inteligência artificial, e nada. Um Estado que não (n)os protege. A ministra? Não sabe o que diz e já não diz o que sabe. Diz que não se demite, e que isso seria mais fácil. Não era, era mostrar vergonha na cara perante o que se passa. O secretário de Estado diz-nos que devemos ser nós próprios a fazer pela vida, porque o Estado não (nos) vai chegar. “Não me façam rir a esta hora”, disse o primeiro-ministro, com a ministra ao lado. Não, senhor primeiro-ministro, isso dizemos nós. Não nos faça rir. Nem chorar. Demitir um ministro não é uma infantilidade. É uma questão de maturidade.

Há causas naturais que estão para lá da capacidade de resposta do Estado, há crimes, nunca há bombeiros que cheguem. Nunca houve, mas nunca morreram mais de 90 pessoas no mesmo verão por causa dos incêndios. Pergunta? O que foi feito entre Pedrógão Grande e este fim de semana, o que mudou na gestão da Autoridade de Proteção Civil, o que mudou na gestão e na coordenação? Senhora ministra, senhor primeiro-ministro, são capazes de nos explicar? Ou não mudou nada porque não havia relatório?

Chega de desculpas. Senhor Presidente, chega de palavras politicamente cuidadas, se tem o poder da palavra, use-o. Senhora ministra, peça a demissão, em seu nome e no nosso. Porque um ministro não anda a apagar fogos, mas tem de inspirar confiança perante aqueles que têm de o fazer, e tem de merecer a confiança dos portugueses. Já não tem uma coisa, nem outra.

(atualizado com número de mortos)

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