Editorial

Não TAP os olhos

O plano de reestruturação da TAP é tão agressivo como necessário. Valha-nos Bruxelas para assegurar que vai ser executado e que nenhum sindicato ou movimento pode parar.

A TAP apresentou finalmente o plano de reestruturação que tem de entregar em Bruxelas até 10 de dezembro, e é exatamente aquilo que se esperava, uma redução significativa da frota de aviões, do número de trabalhadores e dos próprios salários. Serão despedidos mais de dois mil trabalhadores e cortes salariais da ordem dos 25%. Depois de ter injetado 1.200 milhões de euros do dinheiro dos contribuintes para salvar a TAP no meio desta pandemia, o mínimo que se poderia exigir era mesmo um plano credível que a torne viável, sem necessidade de mais fundos públicos. Felizmente, teremos sempre Bruxelas para garantir que o plano será mesmo executado.

A TAP, é preciso dizê-lo, já perdia dinheiro antes da pandemia, a estratégia de David Neeleman e de Antonoaldo Neves dava lucros no excel, mas a realidade era outra. A Covid-19 expôs os riscos de um crescimento acelerado que só tinha um objetivo, engordar a companhia para a vender a um fundo ou a uma companhia internacional, e Neeleman sairia ainda mais rico do que entrou (e o CEO também…).

O Governo tinha outras soluções para garantir que o ‘hub’ de Lisboa mantinha a importância central que tem para a economia portuguesa, porque isso é que é verdadeiramente relevante, e não a TAP propriamente dita. Preferiu a solução mais popular, mas a mais cara também, com o apoio implícito do PCP e do BE, que não olham a gastos quando está em causa a possibilidade de estenderem o seu poder de intervenção. Feita essa intervenção financeira, acompanhada na ‘nacionalização’ da companhia e do despedimento de Neeleman com 55 milhões no bolso e de Antonoaldo Neves, o Governo comprou tempo, que se esgotou. E a pandemia continua por aí.

Chega a ser confrangedor a forma ingénua — e irresponsável — como os sindicatos da TAP pedem ao Governo para ignorar Bruxelas e para injetar mais dinheiro na companhia, eventualmente até contratando mais gente e mais aviões. Só faltava mesmo reaparecer agora o movimento “Não TAP os olhos”, o cineasta João Pedro Vasconcelos e as dezenas de outros que assinaram um manifesto… É por isso mesmo que, felizmente, não está nas mãos do Governo decidir em última análise o que vai ser feito.

Qual é o ponto de partida para este plano? O cenário de prejuízos não é exclusivo da TAP, e as injeções públicas também não, mas a TAP já estava sob pressão antes da pandemia. Este ano, só nos primeiros seis meses, a TAP perdeu quase 600 milhões de euros e esta segunda-feira vão ser conhecidos os prejuízos, agravados, dos primeiros nove meses. A recuperação da TAP estará também dependente de uma vacina anti-Covid e da normalização da atividade económica internacional.

Pedro Nuno Santos tem o seu mais difícil desafio político, e é bom que não lhe tremam as pernas… Depois da decisão de investir 1.200 milhões de euros, aos quais se somarão 500 milhões de garantia de empréstimo (que não vai chegar para as necessidades de 2021), o ministro das Infraestruturas ‘só’ tem uma obrigação: Não é fazer promessas sobre a proteção de empregos na TAP ou sobre a importância estratégica da TAP, não é sequer vender os números de turistas que chegarão a Portugal na companhia de bandeira, é assumir o compromisso de que a TAP vai devolver ao Estado o dinheiro que recebeu dos contribuintes.

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