O ano em que decidimos ser estúpidos

Em 2018 a máscara do Facebook caiu em definitivo. A gananciosa máquina que converte ódio e crimes em lucros é generosamente sustentada por todos nós, que já não temos desculpa.

Há um ano, já tínhamos ouvido falar da interferência russa nas presidenciais americanas e no papel que o algoritmo do Facebook desempenhou conscientemente em tudo isso. Sabíamos que o Facebook era uma excelente plataforma para a disseminação do discurso de ódio contra minorias, para a promoção do suicídio e para a fazer equivaler mentiras a verdades científicas. Mas não sabíamos a dimensão da coisa. Aliás, o quarto dia de 2018 começou com o senhor Zuckerberg a prometer resolver os problemas do Facebook. A partir daí foi uma animação. Só para destacar os casos mais graves, fica um resumo mensal do ano que passou:

  • Ainda em janeiro, no World Economic Forum, a plataforma é apresentada como uma ameaça à sociedade e um obstáculo à inovação.
  • Em fevereiro a Wired publica uma enorme investigação que detalha os pormenores e a dimensão da interferência russa na vida política americana através do Facebook.
  • Em março, o Observer dá a conhecer o imenso escândalo Cambridge Analytica, em que se confirmam os abusos de privacidade dos utilizadores para os manipular politicamente; os fundadores do WhatsApp, comprado pelo Facebook em 2016 e até aí funcionários da casa, aderem à campanha #deletefacebook; e o BuzzFeed dá a conhecer um memorando interno em que se defende o crescimento a todo o custo, mesmo que morram pessoas pela utilização da aplicação.
  • Chegamos a abril e são os próprios responsáveis a admitir que é muito provável que quase todos os dois mil milhões de utilizadores tenha sido, num momento ou noutro, vítimas de invasão de privacidade; e nas inquirições no congresso americano e no Parlamento Europeu, a postura robótica de Zuckerberg e a imagem das frases que deveria repetir expuseram a falácia de todo o processo.
  • Em maio entrou em vigor na Europa o GDPR, que deu imediatamente origem a centenas de processos contra a plataforma; e o relatório provisório da comissão parlamentar britânica que investigou o Brexit é demolidor para a suposta isenção política do Facebook.
  • Em junho o New York Times revelou que o Facebook deu aos produtores dos telemóveis acesso aos dados pessoais dos utilizadores; três dias depois, admitiu ter encontrado um erro em que a informação que estaria reservada apenas para amigos era afinal publicamente visível; e numa entrevista ao Guardian a comissária europeia Verstager alertou contra os riscos para a democracia que vêm dali, dizendo que não sabe se o Facebook tem demasiado poder porque teria antes de definir uma “teoria de maldade” aplicada à plataforma.
  • O verão não correu melhor, porque em plena ronda de relações públicas decorrida em julho, Zuckerberg admite que não quer limitar a liberdade de expressão e por isso defende o direito dos negacionistas do holocausto a estar presentes, mesmo que isso custe vidas e aumente a descriminação; uma semana depois, a publicação dos resultados financeiros faz desaparecer mais de 20% da valorização bolsista da empresa.
  • E em agosto as Nações Unidas acusam a plataforma de ter desempenhado um papel consciente no genocídio dos Royhinga em Myanmar, mesmo depois de sucessivos alertas oficiais em público e em privado; e uma nova investigação demonstrou como, na Alemanha, a propagação do discurso anti-refugiados coincidiu com ataques coordenados a refugiados.
  • Em setembro ficou a conhecer-se a extensão da manipulação política nas Filipinas e na Líbia graças à plataforma e às suas ferramentas; outra investigação jornalística mostra como o Instagram promoveu vídeos de abusos de crianças, acelerando a saída dos fundadores do Instagram por choques com Zuckerberg; e a própria empresa admitiu outra falha que permitiu o roubo de dados privados subsequentemente usados para manipulação financeira.
  • O último trimestre, por si só, seria suficiente para desgraçar qualquer empresa: em outubro chegaram as eleições brasileiras e com elas a revelação da forma como os grupos que promovem desinformação usaram o Facebook e o WhatsApp para atacar os concorrentes de Bolsonaro; na Índia, uma campanha anti-vacinação de crianças levou à suspensão de uma ação da OMS; e novos dados sobre os anúncios no Facebook demonstrou como se publicita a venda de casas e novos empregos excluindo minorias raciais e sexuais, como se falsificam informações políticas e como se podem colocar anúncios a recrutar para… o Estado Islâmico.
  • Em novembro relatou-se o impacto do Facebook nas campanhas de ódio étnico e nas matanças de minorias na Nigéria; o New York Times revelou como o Facebook pagou a empresas de relações públicas para denegrir publicamente, por vezes com base em insultos raciais, os críticos da empresa; a ameaça da nova lei de proteção de dados da União Europeia vai abrir caminho a novos processos; e a justiça britânica tomou posse de uma série de documentos que mostram como a empresa abusa do seu poder para esmagar a concorrência e abre caminho a novos processos milionários.
  • Chegados a dezembro, os próprios responsáveis de segurança da empresa admitem que as fotos de sete milhões de utilizadores foram partilhadas com mais de mil e quinhentas apps; e logo a seguir o New York Times publicou mais uma investigação em que revela como deu a empresas acesso às mensagens privadas dos utilizadores; Um dos papas de Silicon Valley, Walt Mossberg, apagou-se do Facebook pelo desconforto; o Senado americano publicou um relatório em que se revê em alta a interferência russa nas eleições americanas através do Facebook e Washington anunciou uma ação legal contra a plataforma e os seus responsáveis por causa dos falhanços na proteção de dados, provocando mais um trambolhão na bolsa (este “apenas” de sete por cento).

Nada disto acontece por acaso. Todos estes crimes ocorrem porque são inerentes ao funcionamento da própria plataforma e à forma como esta trafica tráfego e informações pessoais por publicidade.

Todos os dias, todos nós, com a participação nesta plataforma, aceitamos ser cúmplices conscientes destes crimes. Estamos a contribuir para crimes raciais, para genocídios, para manipulações políticas e para violações de privacidade. Somo parte ativa de uma máquina que promove emoções e difunde mentiras, enterrando verdades científicas debaixo de camadas e camadas de discursos de ódio. Pior do que isso, estamos a ser parte ativa de um sistema que está a pôr em causa o modelo de democracia liberal em que vivemos, com consequências dramáticas para o futuro. Sabemos isto tudo e continuamos lá. A culpa é nossa, toda nossa.

Para o ano, as coisas vão piorar. Em Inglaterra, porque o Brexit não vai ser bonito. Nos EUA, porque o Trumpismo está cada vez mais afinado como máquina de destruição da coesão nacional. Na Europa, porque vem aí uma eleição – e um parlamento – em que os populistas vão ganhar muito poder. Em Portugal, porque a informação livre vai continuar a morrer e a demagogia vai aumentar na aproximação às legislativas. Mas nada disto é grave: afinal, podemos sempre usar o Facebook para nos queixarmos.

Ler mais: O melhor resumo do caso contra o Facebook está resumido em Anti SocialMedia: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy. O livro foi publicado no início de 2018 e, apesar de não ter quase nenhum dos factos aqui relatados, demonstra quão grave já era a situação. E o seu autor, Siva Vaidhyanathan, é uma voz autorizada e reconhecida: doutorado pela Universidade do Texas, fundou a disciplina de Critical Information Studies e é uma voz influente no estudo das influências culturais dos média.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

O ano em que decidimos ser estúpidos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião