O capitalismo está a comer o liberalismo

A privacidade está a ser substituída pela tecnovigilância e a transparência dos algoritmos é impossível de conseguir. Em causa fica o livre arbítrio e toda a ideia da sociedade aberta.

Na internet, o capitalismo corroeu-se a si mesmo. Os princípios da liberdade, concorrência, inovação e criatividade foram trocados pelo pensamento monopolista e pelo conservadorismo reacionário que negam a essência da sociedade liberal. Não tinha de ter sido assim. Mas do que isso, não deve continuar a ser assim. Mas esse espírito está a alastrar perigosamente graças à conjugação dos interesses e da complexidade dos sistemas, que se manifesta desde logo em dois grandes sintomas.

A vigilância tem estado nas manchetes nos tempos mais recentes, mas ainda não compreendemos de que forma é que a erosão da privacidade mina a liberdade individual. O modelo de negócio das grandes empresas digitais assenta na recolha e utilização da maior quantidade possível de dados pessoais, frequentemente de forma ilegal e certamente anti-ética. E depois usa esses dados com um determinismo sócio-tecnológico que nega o reconhecimento do indivíduo.

A distopia chinesa, que até já define rankings digitais para estruturar quem tem acesso a serviços sociais, pode bem alastrar – aliás, não sabemos se não alastrou já. A Amazon, que alberga a grande maioria da internet no seu negócio de servidores, tem contratos de milhares de milhões com os serviços militares e de segurança do governo americano; a Google, que domina o negócio das nossas personagens digitais (desde as pesquisas na internet ao conteúdo dos emails) faz o mesmo e negoceia individualmente com governos vários o acesso a informações sensíveis.

A vigilância transforma-se rapidamente em controlo de formas que são cada vez mais cinzentas, como já acontece em França numa parceria entre o Eliseu e o Facebook para policiar o discurso de ódio. Some-se a isto as tecnologias de reconhecimento facial e de voz e temos todas as características de um estado policial em formação.

A falta de transparência é o outro sintoma preocupante. A capacidade de escrutinar os poderosos sempre foi um apanágio da sociedade aberta. Através dos poderes instituídos (executivo e legislativo) ou do exercício de cidadania (onde se inclui o jornalismo) foi sempre possível, com maior ou menos sucesso, verificar e responsabilizar os poderosos. Independentemente das teorias da conspiração e da dissimulação criminosa, os mecanismos funcionavam com razoável grau de sucesso.

Hoje já não é assim. A complexidade dos sistemas que regem o quotidiano é de tal forma elevada que a regra é a opacidade: ninguém entende como funcionam os sistemas nem ninguém assume a responsabilidade por eles. Os poderes instituídos nas sociedades liberais não têm capacidade para escrutinar estas questões. A tecnocracia é absolutamente ignorante sobre estas questões e nem o legislador nem o executivo entendem o que está em causa num algoritmo ou na sua utilização social. Como escrevia no outro dia Thomas Friedman, “o nadador-salvador ainda está na praia, mas já não sabe nadar”. O que isto provoca é o fim da coesão social. Se não há responsabilidade dos poderes não vale a pena perder tempo com eles; e se não há capacidade para assegurar equidade, então é cada um por si.

Este duplo assassínio da liberdade e da autonomia configura uma crise da sociedade aberta que tem sido o objetivo dos últimos 250 anos no mundo desenvolvido. Não sei se o que vem aí é melhor ou pior, nem sei se o queremos. O que sei é que temos de o discutir e entender antes que se torne uma inevitabilidade.

Ler mais: O filósofo Yuval Harari, cujo último livro se intitula 21 Lições para o Século XXI, tem uma tese mais complexa e fascinante sobre o fim do liberalismo. Resumindo, ele defende que a datificação das sociedades implica a morte da ideia do livre-arbítrio: construímos as sociedades modernas acreditando que o indivíduo tem sempre a última palavra sobre a sua realidade, mas a fusão da biotecnologia e dos dados pessoais está a demonstrar que os algoritmos conhecem melhor o ser humano do que ele se conhece a si mesmo e que as suas escolhas são sempre condicionadas por fatores externos. Em vez de Descartes, quem manda verdadeiramente é o algoritmo sem nome nem responsável – e se não tomamos as melhores opções, de que vale manter a decisão do lado dos humanos?

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