O clube de um homem providencial

O Benfica que tinha um nível de gestão profissional, equiparado ao das melhores empresas, voltou ao modelo do homem providencial, que tem "feelings" e vê "a luz".

O que é que se passa com o Benfica? Um clube que, na última década, profissionalizou o modelo de organização, um clube com um nível de gestão só comparável ao dos melhores do mundo, com um lote de patrocinadores internacionais, revela um processo de decisão que não anda muito longe daqueles que se vêm nos clubes amadores. Um “feeling”!? “Uma luz”!?. A novela da substituição de Rui Vítória nas últimas 24 horas, independentemente da bondade da decisão (há opiniões para todos os gostos, como se tem lido e visto), o demite-não-demite, só pode ser explicado por um esgotamento da liderança do clube.

Luís Filipe Vieira será, provavelmente, o mais importante presidente da história do clube. Não é possível comparar períodos históricos tão diferentes como os da fundação, o que levou o Benfica a ganhar duas taças dos campeões e o que o clube vive hoje. Mesmo assim, é possível arriscar que nenhum outro presidente conseguiu juntar à dimensão clubística, e desportiva, a profissionalização que se vê nas principais empresas cotadas em Portugal. By the way, o Benfica tem uma sociedade cotada em bolsa, uma sociedade anónima desportiva, tem milhares de pequenos acionistas que terão investido por paixão, mas que, na verdade, investiram as suas poupanças na convicção de que a gestão do clube é profissional. Mas não só. Também os milhares que investiram em obrigações, os que emprestaram dinheiro ao Benfica.

O que se viu nas últimas 24 horas é outra coisa, é uma gestão de cabeça perdida, um presidente que decide à imagem do que sucedia (pensávamos nós) há muitos anos, sozinho, por impulso. À noite estava demitido, por uma decisão coletiva de gestão, de manhã, era o homem certo no lugar certo, por decisão do presidente. Só para recordar, é um clube que tem mais de 200 milhões de euros de receitas, dos quais 150 milhões sem a venda de jogadores.

Se o que se viu nas últimas 24 horas fosse numa outra qualquer empresa, os investidores teriam fugido, se tivesse sucedido o mesmo com outra empresa, a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) já teria obrigado o clube a fazer uma comunicação ao mercado. Como é futebol, ninguém leva a mal. Mas deveria. O que aconteceu com o Sporting no último verão, o adiamento do reembolso de uma emissão obrigacionista, para citar os casos mais recentes, deveria ser um alerta… vermelho. Pelos vistos, não foi.

Rui Vitória é uma espécie de Chief Operating Officer (COO) do Benfica, é o homem que gere o negócio operacional do clube, o futebol, por isso, a sua demissão é uma decisão estratégica. Em qualquer empresa normal, e um Benfica é, ou deveria ser, uma empresa normal, não é possível mudar de opinião de um dia para o outro, especialmente no modo e forma como o próprio presidente do Benfica o anunciou. Qualquer que seja a razão, e vamos admitir que haverá boas razões, o pecado original do Benfica foi alimentar a ideia, até promovê-la, de que Vitória estava demitido. E isto tem, aliás, semanas. Como tem semanas o rumor de que o Benfica queria contratar Jorge Jesus. Agora, Vitória está mais fragilizado do que nunca. Mas não só.

Luís Filipe Vieira já anunciou, na entrevista à TVI, a sua recandidatura a mais um mandato. Foi inusitada, foi, provavelmente, prematura, ou até a evidência de que o próprio presidente do Benfica percebe a situação de fragilidade da sua liderança. E o seu isolamento. Também aqui têm de entrar os sucessivos casos em que o clube está metido, como o e-toupeira, por exemplo.

O que mostra os indícios de decadência de um modelo de gestão não é a derrota, quase humilhante, do Benfica em Munique, é a forma como Vieira está a gerir essa derrota. Como um homem providencial, que decide sozinho, contra tudo e contra todos. Por uma questão de “feeling”, porque viu uma “luz”. Sabemos que o F.C. Porto é um clube de um líder. Pensávamos que o Benfica já tinha ultrapassado este modelo arcaico de organização. Voltou a tê-lo quando mais precisava de uma gestão profissional.

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