Editorial

O efeito CNNpremium

Nasce hoje uma nova marca de informação, a CNN Portugal, com uma presença digital forte. É uma ousadia, é um risco e é uma oportunidade para um novo ciclo no jornalismo português.

A CNN Portugal vai para o ar esta segunda-feira exatamente às 20h56, no canal 7 da sua televisão, substitui a TVI24 e é o maior projeto de comunicação social da última década (pelo menos). É a ousadia de um empresário -- Mário Ferreira -- que é visto com desconfiança pelos círculos do poder em Lisboa desde que comprou uma participação na Media Capital. Ainda hoje. É uma aposta de risco porque o mercado continua a ser o mesmo, o dos telespectadores e o publicitário, mas é sobretudo uma oportunidade para um novo ciclo no jornalismo português.

Faço uma declaração de interesses (ou duas): Sou colaborador da CNN Portugal e por isso acompanhei de perto o que foi o desenvolvimento do projeto, e três acionistas da Media Capital (Luis Guimarães, João Serrenho e Mário Ferreira) são acionistas do ECO. Quando a Media Capital anunciou o acordo para o lançamento da CNN Portugal, as reações variaram entre a surpresa, a condescendência e o paternalismo. Foi no dia 24 de maio. Hoje, 22 de novembro, quase tudo mudou.

O ponto de partida da CNN Portugal em termos de audiências assenta na TVI24, ou seja, é mais do que zero, mas é curto para quem quer liderar (e isso é o mínimo que se exige). A TVI24 tem um share de audiência de 1% enquanto a SIC Notícias, o incumbente e líder de mercado, está nos 2,8%. A marca mais reconhecida de jornalismo internacional é uma referência que vale por si antes mesmo de ir para o ar (e no site, cuja aposta é também uma novidade nas televisões). A escolha de Nuno Santos como diretor-geral da CNN Portugal foi talvez a mais importante das decisões, porque não há no mercado quem saiba mais de televisão, de informação e de entretenimento, com o lançamento da SIC Notícias no currículo, experiência internacional e liderança de programação na SIC e informação na RTP. Mas se as duas condições são essenciais, não são suficientes para garantir a liderança de audiências e sustentabilidade financeira do canal.

Ao contrário de outros exemplos internacionais de licenciamento, a CNN Portugal assenta numa estrutura que já existia, em equipas competentes e em conhecimento de mercado. A TVI24 acaba e dá lugar a outro canal, noutros estúdios, com outro alinhamento editorial, com uma equipa revista e aumentada, com uma (desejável) diferente forma de contar as notícias (e com notícias). Não será o mesmo canal com outra marca, com outra roupa, com outros cenários. Ou não pode ser. Tem de ser outra coisa. E muito melhor. Daí que, na prática, as audiências da CNN Portugal não existem, partem do zero.

O investimento no novo canal (e na presença digital) não tem paralelo com qualquer outro projeto jornalístico pelo menos na última década. Em estúdios, em pessoas, em formação. Quando um jornal morre, é a democracia que está em causa, dizem-nos logo. Não é, desde que nasçam outros. A TVI24 morreu, viva a CNN Portugal.

Para chegar a líder, a CNN Portugal vai ter de roubar audiências à SIC Notícias e alguma coisa à RTP3 (a CMTV não é concorrente, está aliás a fazer uma excelente campanha publicitária, da responsabilidade criativa da FCB Lisboa, para tentar reposicionar o canal à boleia da CNN). Será mais difícil atrair mercado das generalistas e mais ainda de públicos que não ligam sequer a televisão, especialmente os mais jovens. Hoje, os jornais e as televisões não concorrem apenas entre si, concorrem com outros produtores de conteúdos como a Netflix, a Disney ou o mundo dos jogos online. O tempo e o dinheiro são bens escassos. A CNN vai ter de ser generalista, e tentar muitos públicos, sem perder de vista que as classes A e B são as mais influentes, e é onde os grandes investidores comerciais querem estar.

A concorrência no mercado do jornalismo vai obrigar a SIC Notícias a fazer mais e melhor, a correr, porque está instalada e vive da liderança confortável. E a RTP3 ou muda ou vai desaparecer com o tempo, mais cedo do que tarde. E mesmo os jornais passam a ter mais um concorrente no digital. Quando um novo meio de comunicação social é lançado, há a oportunidade para novos jornalistas, o mercado renova-se. É mesmo um novo ciclo.

A operação CNN Portugal paga-se? O jornalismo não é imobiliário ou a compra e venda de ações para realizar mais-valias no curto prazo, como bem sabem os acionistas que investem em meios de comunicação social numa perspetiva de negócio (que é o que tem de ser), com o respeito pela sua natureza e independência. O jornalismo exige tempo, consistência e coerência. Mas este é ainda maior desafio do que o das audiências, porque o mercado publicitário é estreito e a sustentabilidade do modelo de televisão no cabo está muito dependente do que decidem os três operadores, o Meo, a Nos e a Vodafone, que pagam para ter os melhores canais.

No final do dia, o sucesso económico e financeiro dependerá do que for a CNN Portugal em termos editoriais, da capacidade de mostrar o país, de mostrar o mundo, de escrutinar e informar, de analisar mais do que comentar. De dar notícias, daquelas que todos não só querem como precisam de ver num tempo em que as redes sociais são o que são. Sem a preocupação de uma falsa objetividade, a cores e não a preto e branco, com a verdade. 'If you want to sell journalism, you have to do journalism'. É o que a CNN Portugal vai ter de fazer. E isso é o jornalismo a cumprir o seu papel.

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