O Enigma Inglês e umas certas Eleições Gerais

O Brexit é um corpo abandonado no vermelho de uma cabine telefónica. Todos passam por ele sem reconhecerem o rosto conhecido.

O Grande Jogo está lançado — eleições na Grã-Bretanha. As sondagens nacionais não vão conseguir traçar o mapa polarizado nem prever o volátil resultado. Se é possível uma Ilha estar em deriva política, então o Reino Unido desaparece nas fronteiras do Atlântico. Boris, o Rei Zog, tanto poderá ter o génio de um herói político, como a impunidade de um condenado à morte, como o destino do Primeiro-Ministro com a mais curta permanência em Downing Street nos últimos 100 anos. Que importa o resultado. O prazer do Grande Jogo Político não está no modo como acaba, mas no vício intoxicante do desconhecido. É a política no enigma insondável dos Deuses e da Sorte.

Quanto à parábola dos cenários, eis as eleições em formato de folhetim para escolher como provocação política ou como incitação prematura à revolta. Primeiro, sobre a possibilidade de uma vitória Tory. Os Conservadores para ganharem as eleições têm de colocar todo o discurso político no registo hiperbólico do Brexit. Para tal têm de contornar o apelo seráfico do Brexit Party e captarem no cântico celeste da mensagem política a confiança da classe operária branca e do Norte de Inglaterra. Refira-se que este voto é domínio tradicional e território feudal do Labour. Em Londres e no Sul de Inglaterra, os Conservadores têm de resistir à avalanche ambiciosa dos Liberais-Democratas, o Partido Oficial dos Remainers. As perdas para os Lib Dem têm de ser compensadas com os ganhos sobre o Labour.

Para a equação ficar completa, os Conservadores têm de contrariar o domínio do Partido Nacional Escocês, SNP, e conseguir eleger deputados na difícil arena da Escócia. Depois da era Thatcher, os deputados Tories foram praticamente extintos na Escócia, havendo mais ursos Pandas no Zoo de Edimburgo do que eleitos Conservadores. Se os astros convergirem neste peculiar alinhamento, uma “maioria politicamente operacional” e Conservadora será possível, o que viabiliza a concretização de uma versão mais “hard” do Brexit. Caso a vitória não atinja os números de um Governo estável, a porta do segundo Referendo abre-se sem cerimónia. Se algum detalhe fugir a este alinhamento, é novamente um “Parlamento Enforcado”.

Segundo, sobre a possibilidade de uma vitória Labour. Elemento essencial na mensagem eleitoral será não referir o Brexit. O Labour não é suficientemente contundente na sua posição política face ao Brexit, refugiando-se na ambiguidade entre o Brexit e o Remain, conseguindo assim afastar as duas tribos. Neste ponto a vulnerabilidade ao voto Lib Dem será máxima. Depois existe o “Factor Corbyn”, uma figura política marginal e que eleva a hostilidade política dentro e fora do Labour. Relativamente ao SNP, a Escócia sempre foi um bastião Labour, logo a vitória dos Trabalhistas implica um excelente resultado a norte da Muralha de Adriano. A mensagem Labour deve centrar-se na clássica oposição Progressistas vs. Conservadores, com a promessa de fazer regressar a Grã-Bretanha aos anos 70 do século XX e a uma era anterior ao consulado Thatcher. Se o alinhamento correr na perfeição, uma vitória Labour representa uma renegociação do Brexit, no sentido mais “soft” e minimalista do termo, mais um novo Referendo sobre a Europa, mais um novo Referendo sobre a Independência da Escócia.

Qualquer outro cenário converge para uma solução política de Coligação, provavelmente pela Revogação do Artigo 50, provavelmente por uma versão do desenlace “Noruega Plus”, ou seja mais incerteza política a balançar um “Parlamento Enforcado”.

Há qualquer coisa de apocalíptico e disfuncional na política Britânica. Os Remainers aparentam a natureza de uma “política filial” relativamente à Europa, ignorando o Referendo, refugiam-se numa dimensão ideal da identidade Britânica ligada ao Continente e associada à Europa. Para os Remainers, o argumento da filiação política tem uma forte componente económica, tecnocrática, pragmática no sentido de dar prioridade ao bem-estar e à criação de riqueza em ambiente de estabilidade. Os Brexiteers aparentam o reflexo de um certo “erotismo político” relativamente à ideia de uma Grã-Bretanha livre e em viagem pelo Mundo, numa enorme, entusiasta, imaginária aventura para além dos muros e da nostalgia de uma “boarding school”. Para os Brexiteers, o argumento da filiação política tem uma forte idealização romântica, uma profunda substância tradicional, uma incomensurável vibração política no sentido de recentrar o Mundo de acordo com o novo meridiano Britânico, corsário, potencialmente próspero, irreverente na abertura às contingências transnacionais, pelo prazer do jogo, pela volúpia do risco, pela sensualidade de um novo capítulo na História do Mundo.

O Brexit é um corpo abandonado no vermelho de uma cabine telefónica. Todos passam por ele sem reconhecerem o rosto conhecido. Um “Estudo Escarlate”, um teste de ADN, a observação de Sherlock Holmes estimulado pela injecção de uma solução de cocaína a 7%, talvez resolvessem o maior mistério político da actualidade. A Grã-Bretanha é o retrato da poesia excêntrica dos lugares comuns que se elevou ao estatuto da grande literatura política do nonsense.

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