Editorial

O fim de Vieira

Chegou a vez dos grandes devedores serem chamados à justiça. O processo contra Luís Filipe Vieira só agora começou, mas vai ser suficientemente longo para se saber que a sua presidência chegou ao fim.

Definitivamente, chegou a vez dos devedores. Depois de Berardo, Luís Filipe Vieira (e outros se seguirão nos próximos meses). A impunidade de quem deixou de pagar e sobretudo de quem montou esquemas para capturar negócios e rendimentos estava, até agora, protegida. E isto é numa nova fase na vida pública portuguesa, em que os suspeitos de corrupção (em sentido lato) são levados à justiça. Agora, Luís Filipe Vieira é detido por indícios graves de crimes de burla qualificada, abuso de confiança agravada, falsificação de documentos, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada, numa investigação que resultou também na detenção do empresário José António dos Santos, o chamado ‘rei dos frangos’, do filho de Vieira, Tiago Vieira, e do agente de futebol Bruno Macedo. Estão em causa negócios de mais de 100 milhões de euros.

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Vamos por partes: Alguém está mesmo surpreendido com os indícios e a detenção de Vieira? Não. Só mesmo, talvez, com a ‘ousadia’ da justiça, a detenção do presidente do Benfica em exercício (Vale e Azevedo caiu em desgraça depois de perder as eleições). Os indícios agora conhecidos — como o despacho do mandado de buscas e de detenção que o ECO revela — são pesados, são graves, e sobretudo mostram o que Vieira jurava não haver, uma mistura entre o Benfica e os seus negócios pessoais. “Eu só estou aqui porque sou Presidente do Benfica”, disse Vieira na comissão de inquérito ao Novo Banco. Infelizmente, é verdade, é mesmo verdade, uma verdade incómoda porque os indícios de negócios e os casos judiciais somaram-se e foram sendo ultrapassados porque estava em causa o Presidente do Benfica, ou melhor, o Benfica. Mas nem o Benfica poderia proteger Vieira do que se sabe agora, e que ficou exposto de forma nua e crua na comissão de inquérito, a relação de negócio pessoal e na SAD do clube com José António dos Santos, o popularmente conhecido ‘Rei dos frangos’.

A OPA do Benfica sobre a própria SAD nunca foi bem explicada, e não apenas por causa das fontes de financiamento do clube, que, segundo a CMVM, resultavam da própria Sociedade Anónima Desportiva (SAD). Mas de outra coisa, a necessidade do clube de ter 100% da SAD, o que permitiria a José António dos Santos fazer uma mais valia da ordem dos 12 milhões de euros, coisa pouca, portanto. Quando se sabe, na comissão de inquérito, que José António dos Santos ajudou Vieira a livrar-se de avales pessoais com o Novo Banco, os pontos juntam-se. As comissões de transferências de jogadores — outros indícios que justificaram a detenção — agravam a situação de Vieira e confirmam a confusão instalada entre os seus negócios pessoais e o Benfica.

Vieira vai ser ouvido esta sexta-feira pelo juiz Carlos Alexandre. Quais serão as medidas de coação? Percebe-se que o Ministério Público vai ser duro por causa do risco de destruição de provas e de fuga, mas mesmo que não venha a ser detido preventivamente, vai seguramente ser proibido de entrar nas instalações do Benfica e de contactar com todos os outros administradores. Vai deixar de ser presidente do Benfica de facto antes de deixar de o ser de direito, por suspeitas que envolvem negócios que lesaram o clube (e o Estado), por isso é bom que não se alimente a possibilidade de Vieira permanecer com presidente. Seria insustentável e seria, outra vez, a utilização do Benfica como escudo de proteção de Vieira.

O mal, diga-se, está feito. A reputação e imagem de credibilidade do Benfica estão afetadas, e isso são inevitáveis medidas imediatas de mudança de ciclo. A direção que está em funções vai ter de decidir entre a solidariedade pessoal com Vieira e a responsabilidade de assegurar o futuro do Benfica enquanto instituição.

Luís Filipe Vieira pode ter sido o melhor e o pior presidente da história do Benfica? Provavelmente.
E este processo também mostra como a perpetuação no poder cria incentivos perversos que, mais tarde ou mais cedo, se revelam. Tirou o Benfica do buraco em que estava com Vale e Azevedo, mas ao fim destes anos, deixa o Benfica com um lastro de processos judiciais e uma reputação degradada e a exigir um novo ciclo, que vai exigir eleições antecipadas.

Nota: Ainda há poucos meses, António Costa e Fernando Medina entenderam dar a sua credibilidade e o seu nome para a comissão de honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira e saíram à força, por pressão mediática. O que dirão agora?

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