O Irão, os Versículos Satânicos e uma Aventura na Austrália

Com o caso Rushdie a Revolução no Irão abriu as portas de um infinito reservatório de ressentimentos, de um ódio reprimido pelo Ocidente que cresce e que continua a crescer.

Passam 40 anos da Revolução Islâmica. O ritual do ódio à sexta-feira proclama o rancor metafísico à América e ao Ocidente. Os mullahs falharam na experiência política de criação de uma Democracia Islâmica, mas ganharam na definição de uma Teocracia Nuclear. Talvez para ficarem mais perto do Paraíso.

Passam 30 anos da Fatwa decretada pelo Ayatollah Khomeini sobre o escritor Salman Rushdie a propósito da publicação dos “Versículos Satânicos”. Quatro anos depois Khomeini morre, mas deixa em herança ao mundo o decreto sagrado e uma recompensa de 2,8 milhões de dólares para os defensores da honra do Islão. O Governo Britânico, através do Special Branch, rapidamente assume a protecção de Rushdie e corta relações diplomáticas com Teerão. Durante 13 anos Rushdie circulou por casas seguras. Prisioneiro das suas palavras, com o pseudónimo de Joseph Anton, o Autor muda de residência 56 vezes apenas nos primeiros seis meses da sua nova vida – o proscrito acusado de Blasfémia. Embora a morte não seja uma forma de crítica literária, Rushdie é condenado à morte pela publicação de um romance que se passa na Londres de Margaret Thatcher e na cidade sagrada de Meca. O centro da narrativa gravita em torno das aventuras de dois actores indianos, Gibreel e Saladin, que viajam num avião que é desviado e explode sobre o Canal da Mancha. Os dois protagonistas reemergem numa praia inglesa e misturam-se com os imigrantes na cosmopolita Londres, seguindo-se uma surreal e extraordinária sequência de acontecimentos onde a realidade e a fantasia se sobrepõem num exercício complexo típico do realismo mágico. Os protestos islâmicos estendem-se por todo o mundo, com editores mortos, livreiros ameaçados, livrarias incendiadas, livros queimados, Rushdie executado mil vezes em efígie pelas praças da Europa e nas ruas muçulmanas, tudo motivado pela insolência e pelo sacrilégio de uma representação ficcional da vida do Profeta e das origens do Islão.

Com o caso Rushdie a Revolução no Irão abriu as portas de um infinito reservatório de ressentimentos, de um ódio reprimido pelo Ocidente que cresce e que continua a crescer – veja-se o caso das “Caricaturas Dinamarquesas” e sobretudo do “Charlie Hebdo”. Não são delitos de opinião, mas delitos de sangue que mancham as relações entre Ocidente e Oriente, entre Cristãos e Muçulmanos. Mas a herança da Revolução no Irão acrescenta também o declínio do debate intelectual sobre o Islão, representa acima de tudo o momento de viragem em que o Islão se fecha sobre as suas próprias verdades auto-proclamadas, como se as “Grandes Portas” se fechassem para a eternidade. No entanto, perante a condenação de Rushdie, os intelectuais progressistas e liberais do Ocidente falharam de modo abjecto na defesa dos valores constitutivos do Iluminismo e da Modernidade – a defesa da liberdade de expressão associada à tomada de posições públicas. Falharam na herança e no espírito de Voltaire. Esta cobardia moral abre espaço para discursos iliberais, populistas e islamofóbicos, cobardia que se tem transformado em sangue europeu derramado nas ruas da Europa. Pelo cinismo, pela auto-censura, pela negação sectária e politicamente conformista, acabam a defender valores estranhos à tradição ocidental adoptando valores próprios de um despotismo oriental, teocrático, disfarçado de tolerância e alimentado pela síndroma da culpa. Haverá algum escritor com a coragem para publicar hoje um livro como os “Versículos Satânicos”?

Salman Rushdie e Bruce Chatwin viajaram juntos pela imensidão da Austrália. Com um mergulho no tempo e um salto no espaço, em 2019 o vencedor do mais importante prémio literário da Austrália não está presente na atribuição da distinção. Behrouz Boochani é o vencedor do Victorian Prize para as categorias de não-ficção e de literatura, prémio que representa um valor pecuniário acumulado de 125,000 dólares. O escritor Iraniano de ascendência Kurda é um refugiado que aguarda a atribuição de asilo político pela Austrália, logo impossibilitado de receber pessoalmente o reconhecimento literário uma vez que se encontra há seis anos na Ilha de Manus, um centro de detenção offshore. Esta é a política oficial da Austrália relativamente a todo e qualquer refugiado que pretenda entrar em território soberano. O livro premiado intitula-se “No Friend But the Mountains” e foi inteiramente escrito com recurso a “text messages” enviadas de Manus para o seu tradutor em território continental – originalmente escrito em Farsi e posteriormente traduzido para Inglês. O que liga Boochani a Rushdie é a infinita fragilidade de quem expressa as suas opiniões políticas no sortilégio da grande esfera pública, um espaço em que as palavras se vão dissolvendo em partículas incertas, em que os mais pequenos detalhes assumem proporções grotescas, tornando evidente que a própria ilusão se confunde com a realidade. Boochani e Rushdie, viajando em sentidos contrários, representam a essência universal da palavra escrita e a busca incessante por uma “Pátria Imaginária”.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico

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