O legado de Belmiro. A boa oportunidade de Centeno

A subida de Mário Centeno ao cargo de presidente do Eurogrupo permite acabar com as “meias tintas”. Se o problema são as regras do Euro, nada como ir lá e tentar resolver a questão.

Já está praticamente tudo dito sobre Belmiro de Azevedo e as suas várias facetas. No momento da sua morte, foi recordado o empresário determinado, com visão estratégica e capacidade de concretização; o inovador no estilo de gestão; o homem de espírito livre e independente de tudo e de todos, política e políticos incluídos; o investidor altruísta e financiador distanciado do melhor jornal diário do país; o líder que soube preparar a sua sucessão e sair de cena a tempo; os hábitos simples e frugais, o carácter genuíno, o respeito pelas origens.

Por tudo isto, pelo que construiu ao longo de cerca de cinco décadas, Belmiro é certamente o mais relevante empresário português, pelo menos da democracia.

Mas há um traço distintivo, raro, que nunca é demais sublinhar: a absoluta independência face ao poder político, ao Estado, aos sucessivos governos. Não só o grupo Sonae nunca teve negócios que foram adiante porque tiveram um “empurrãozinho” do Estado como sabemos que, pelo menos num momento decisivo, teve o governo de turno de braço dado com a “clique” que dominava o país para inviabilizar uma operação de mercado: a oferta pública de aquisição que o seu grupo lançou sobre a PT.

Belmiro não era, felizmente, o único a manter este distanciamento. Outros empresários de grupos relevantes tiveram e têm a mesma atitude, da indústria ao comércio. E, sobretudo, há milhares de outros empresários anónimos que desenvolvem os seus negócios sem nunca sonharem vir a ter alguma facilidade concedida pelos poderes instituídos. Antes pelo contrário, muitos têm que lutar diariamente contra a burocracia, os regulamentos, a carga fiscal excessiva, as exigências tantas vezes kafkianas de um Estado que pede papéis muitas vezes sem saber porquê e para quê.

A diferença para estes era a exposição pública do fundador da Sonae. Belmiro de Azevedo não só não beneficiou de negócios com o Estado como nunca calou o que lhe ia na alma em cada momento, o que o tornava um alvo de represálias e de obstáculos colocados pela administração. No país do “respeitinho é muito bonito” e onde muita gente continua a praticar o conveniente “uma mão lava a outra” entre negócios e política, este é um legado de Belmiro de Azevedo que nunca podemos esquecer. Ele serve de contraprova ao país dos negócios que vivem de rendas concedidas pelo Estado, dos mercados protegidos de concorrência, dos concursos públicos feitos à medida ou das jogadas desenhadas em gabinetes ministeriais.

E podemos perguntar: se apesar deste contexto a Sonae se tornou no mais importante grupo económico português, até onde teria ido se tivesse tido a cumplicidade que outros tiveram ao longo de décadas? Nunca saberemos. E Belmiro seria, seguramente, o primeiro a não querer saber por se recusar a sujar as mãos nesse terreno lodoso em troca de mais uns milhões de facturação aqui ou ali.

2. Se Mário Centeno for eleito na segunda-feira o presidente do Eurogrupo essa será uma óptima notícia para o país. Não vejo como pode dali resultar alguma consequência negativa. No limite, a escolha do ministro das Finanças para o cargo será neutra, não aquece nem arrefece. Mas, ainda assim, é prestigiante que um governante português reúna apoios por ter as credenciais necessárias para a liderança do Eurogrupo. E Mário Centeno tem-nas todas, sem margem para dúvidas.

A grande vantagem de termos o ministro das Finanças do actual Governo português nesse cargo europeu é a imensa possibilidade de acabar com ambiguidades e com discursos duplos e contraditórios. A concretizar-se, este cenário será, certamente, clarificador das nossas relações com Bruxelas e com as regras da moeda única.

Este é, aliás, um processo que já iniciámos nos últimos dois anos. Estamos recordados de como, antes de avançarem para esta solução governativa, PS, PCP e Bloco de Esquerda defendiam que Portugal devia “bater o pé” em Bruxelas contra as regras apertadas das contas públicas, contra o “espartilho do Tratado Orçamental” e a favor de uma solução europeia que permitisse uma rápida reestruturação da dívida pública.

O plano económico que o PS levou a eleições era muito claro nesta matéria: vamos ser muito mais lentos na redução do défice porque, dessa forma, potenciaremos um mais rápido crescimento da economia.

Ora, para que as ilusões desapareçam, nada como o embate com a realidade, com a responsabilidade de governar, com a necessidade de negociar orçamentos com Bruxelas, de construir confiança nos mercados e ter atitudes responsáveis compatíveis com a dependência permanente que o país tem do financiamento externo. Uma coisa são as receitas de treinadores de bancada, sempre infalíveis, e outra é ir para o campo disputar jogos.

O Governo rapidamente meteu na gaveta as fantasias eleitorais e tratou de ir, e bem, “além da troika” no cumprimento das metas orçamentais. Mário Centeno não hesitou em recorrer às maiores cativações definitivas de despesa de que há memória e a um profundo corte no investimento público, corrigindo nas execuções orçamentais ao longo do ano os defeitos dos orçamentos aprovados no Parlamento.

Da mesma forma, o estilo “agarrem-nos, senão reestruturamos a dívida” rapidamente deu lugar ao regresso do bom aluno que gosta de passar nos testes das agências de rating e está até vaidoso com a descida das taxas de juro que a disciplina orçamental permite.

E, claro, de mudanças do Tratado Orçamental nem se ouve falar.

Em dois anos de governação, acabou-se uma grande parte da crispação – que era artificial, como se viu, servindo essencialmente para consumo populista interno – que uma boa parte da esquerda esgrimia contra Bruxelas. Porque, a partir do momento em que PS, BE e PCP passaram a ter responsabilidades governamentais directas ou indirectas a pergunta óbvia passou a ser: se é assim, porque não passam da retórica à prática?

Ora, se os argumentos sobre a estrutura das políticas da União se esgotaram por manifesto risco de contradição entre a palavra e acção em Lisboa, sobrou ainda o foco de fricção com o Eurogrupo. Afinal, era ali que estavam os “falcões”, os “moralistas” das contas públicas, aqueles que não permitem que o país floresça e se torne numa economia próspera, coisa que conseguiríamos facilmente, como sabemos e temos provas dadas, sem as amarras definidas naquele pequeno grupo que defende “políticas de empobrecimento”. Todos recordamos as declarações inflamadas contra Wolfgang Schauble e os indignados pedidos de demissão de Jeroen Dijsselbloem, esses dois grandes representantes de países empobrecidos, indisciplinados e falidos, como todos sabemos que são a Alemanha e a Holanda.

A continuação deste atrito é negativa porque dá falsos álibis aos governantes em Lisboa, sejam eles quem forem, e é um factor permanente de ambiguidade e de falta de clarificação de políticas.

É a possibilidade de se acabar com estas “meias tintas” que a subida de Mário Centeno a presidente do Eurogrupo tem. De uma vez por todas, se o problema são as regras em vigor na Zona Euro, se o diabo está num líder do Eurogrupo que alinha com os alemães, então nada como ir lá e tentar resolver a questão na fonte. Vamos mudar o Eurogrupo. Ou então esperar que o Eurogrupo nos mude, cenário que considero muito mais provável. Mas pelo menos reduz-se dramaticamente o espaço para discursos fáceis, justificações de ocasião e inimigos externos oportunos.

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