O país do Solar dos Barrigas

  • Fernando Sobral
  • 22 Fevereiro 2020

Este Governo está a tornar-se uma SGPS de Alojamento Local. Tudo está disponível para arrendar. Até os ideais.

“O Solar dos Barrigas” foi o nome de uma opereta muito popular em 1895. Criada por D. João da Câmara, demolia o regime dos interesses instalados, dos amiguismos e das cumplicidades. O Solar dos Barrigas era o modelo de governação de funcionários do partido e do Estado. Todos bebiam do mesmo barril. Foi essa designação que foi aplicada ao executivo de Hintze Ribeiro e João Franco, que depois de alterar a lei eleitoral à sua medida, governava com unanimidade parlamentar. Na Câmara dos Deputados só existiam deputados regeneradores. Nela fazia-se um jogo do faz-de-conta. Fingia-se que existiam debates, mas tudo já estava decidido no Solar dos Barrigas. Vivemos tempos quase semelhantes. Não há unanimidade parlamentar, mas o ambiente político é de comédia de costumes. A degradação das instituições é gritante. O assalto ao Estado uma aparente normalidade.

No Solar dos Barrigas não se passa nada. O sr. Mário Centeno, depois de ter falhado com estrondo a sua ida para o FMI, contenta-se com o lugar de governador do Banco de Portugal. Transitar de ministro das Finanças directamente, sem passar pela casa partida, para governador do BdP, não causa comichões. Ninguém vê incompatibilidades ou, pelo menos, limites éticos. Era como o Tio Patinhas abdicar da sua caixa-forte para passar a governar Fort Knox, perante o aplauso do Rato Mickey, do Professor Pardal e do Pateta. Neste país de faz de conta, um senhor que ainda hoje se está para descobrir como foi ministro de um sector fundamental, a Defesa, diz que nada do que se passou em Tancos lhe pareceu anormal. Porque via filmes policiais. Imagine-se se fosse fã do Panda Kung Fu.

O psicadelismo político vai-se intensificando. Quando o secretário de Estado adjunto e das Comuniações, o sr. Alberto Souto de Miranda, consegue escrever, sobre o aeroporto do Montijo, que “os pássaros não são estúpidos e é provável que se adaptem”, está tudo explicado sobre a incultura dominante no Solar dos Barrigas. A sua clarividência ofusca qualquer ser humano. O sr. Miranda revelou-se um estadista “zombie”. Defende uma nova versão de “darwinismo social”: quem não se adaptar, que fuja, emigre ou sucumba, atropelado pelas “forças do progresso”. A ciência tudo resolve, diz ele, na sua inquestionável sabedoria. É verdade. De outra forma, como poderia alguém que rabisca estas coisas continuar a ser membro de um Governo? É um milagre da física quântica. Começa a ser demasiada ficção governamental em tão pouco espaço de tempo. No Solar dos Barrigas, os seus membros vêem-se a si mesmos, e tudo o resto esquecem-se de vislumbrar.

A ínclita gestão do Solar dos Barrigas também se aplica à cultura. A transformação de tudo o que move no sector do património cultural em algo para rentabilizar está a tornar-se a norma. Não é estranho. A política económica deste Governo é o turismo. Nada mais e nada menos. O laboratório que tem sido nos últimos anos a transformação da cidade de Lisboa em mero entreposto turístico (e imobiliário) foi agora elevado a razão de Estado.

Assim compreende-se melhor a nomeação de um gestor com experiência no imobiliário para dirigir a Direcção-Geral do Património Cultural. A tímida experiência já tinha sido tentada com a possível conversão da fortaleza de Peniche num hotel. O Governo recuou, mas agora empresta armas e arquefactos arqueológicos a uma empresa turística. Há aqui qualquer coisa que fez pouco sentido. Uma coisa é, usando o turismo, investir-se no património cultural do país, para este ser visitado e ser fonte de receitas. Outra é fazer um leilão com ele.

Este Governo está a tornar-se uma SGPS de Alojamento Local. Tudo está disponível para arrendar. Até os ideais. O historiador Tacitus, descrevendo os romanos, disse um dia: “Eles criaram uma terra desertificada e deram-lhe o nome de paz”. Só que, como se sabe, a paz turística também está sujeita aos ciclos económicos. Que o digam outros países que, um dia, seguiram como ovelhas obedientes o som da mesma flauta de Pã.

Sugestão da semana

O novo álbum de Tame Impala (Kevin Parker, um “One man show”), “The Slow Rush” é uma fantástica mistura de muitos géneros, do som Soul de Filadélfia, ao Acid House, ao R&B contemporânea e ao psicadelismo das grandes guitarras. Empolgante.

  • Fernando Sobral
  • Jornalista

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