Editorial

O país precisa de outro Marcelo (e não do que conhecemos nos últimos 5 anos)

Marcelo Rebelo de Sousa também é responsável pelo estado do país, pelo empobrecimento. Já conhecemos Marcelo há cinco anos em Belém. E é certo que o país precisa de outro Marcelo.

O segredo político mais mal guardado do país foi revelado, o tabu de que todos falavam sem descrição está exposto. Marcelo Rebelo de Sousa levou para lá do limite aceitável o anúncio de uma recandidatura que já estava decidida há cinco anos e acabou a fazê-la dentro de umas pastelaria, no meio de bolos e croquetes, a 100 metros do Palácio de Belém. A farsa começou antes do anúncio formal e prolongou-se, depois, com a saída a pé da Pastelaria Versailles, sozinho, como se a recandidatura começasse ali, naquele discurso de nove minutos. A apresentação foi pobre, limitada, sem energia ou capacidade de mobilização. É tudo o que não precisamos de Marcelo nos próximos cinco anos.

O país cheira mal, está em águas paradas, a empobrecer, e só o foco — ou a distração ou a necessidade — na pandemia torna o ambiente político, económico e social respirável. Há mais preocupações para lá do Governo que temos. Em confinamento, desatentos ao que se passa lá fora, a um país governado pelo PS e por um PCP que não tem vergonha de apoiar um ditador como Maduro e o seu regime, por um Governo que vê um cidadão ucraniano a ser assassinado dentro do SEF e não assume quaisquer responsabilidades, por um Estado que vai gastar três mil milhões numa única empresa, a TAP, quando não tem resposta a centenas de milhar de empresas e de empregos.

Marcelo também é responsável pela crise em que o país mergulhou, pela incapacidade de reação a uma pandemia, pelo falhanço do Estado, pela degradação económica e social, por vivermos num país mais pobre e a ver os outros a ultrapassarem-nos ano após ano, no fundo da Europa, por um país de mão estendida, a mendigar fundos europeus para compensar o que não há capacidade para fazer.

Marcelo bem pode dizer que é candidato porque há uma pandemia a enfrentar e uma crise económica e social e não vai fugir às responsabilidades. É o contrário. Os portugueses é que não poderiam deixá-lo fugir sem assumir as suas responsabilidades, sem o obrigar a confrontar-se com as suas ações e ainda mais com as suas omissões. E se o fizesse, se fugisse, estaria como que a apagar as milhões de selfies que entretiveram os portugueses nos anos da fantasia.

Marcelo bem pode dizer que os portugueses o conhecem há vinte anos e mais particularmente há cinco anos. “Sou exatamente o mesmo”, disse-nos Marcelo. Ora, é mesmo aqui que temos um problema. Marcelo está para estas eleições como a Democracia para todos os outros regimes. É o pior candidato, com exceção de todos os outros. É o pior pelo que fez e não fez nos últimos cinco anos, mas o país não tem mesmo alternativa (mérito de Marcelo, demérito do país que se deixou encantar e perdeu o sentido de exigência), por isso nos próximos cinco anos Marcelo não pode ser o mesmo, não pode exercer o seu magistério de influência da mesma forma. Não pode viver na obsessão do apoio de António Costa e do PS, não pode dar cobertura, e participar até, aos saltos para a linha da frente da inovação (qual linha!?) anunciados pelo primeiro-ministro.

A garantia de estabilidade política, a geringonça, quando há dinheiro não é grande cartão de visita, como se vê agora, neste orçamento para 2021, em que o BE saltou e o PCP exigiu. Marcelo não merece mais do que um 10 (numa escala de 0 a 20) e vai ter agora a oportunidade de ir à segunda fase de exames. Num contexto mais exigente, sim, e não apenas resultado da pandemia. A Covid-19 tem as costas largas para justificar o que não foi feito e para justificar decisões que são agora tomadas para tapar os buracos dos últimos cinco anos. Portugal cresceu pouco e distribuiu muito. E quantos diplomas Marcelo promulgou, com avisos para descansar a consciência? As 35 horas, por exemplo, que não teriam custos acrescidos no orçamento.

Não vai ser muito necessário esperar muito tempo para avaliar se teremos o mesmo Marcelo de sempre ou um novo Marcelo. O ano de 2021 vai ser decisivo, pela política, pela economia, a exigir o que Marcelo nunca foi. Vai ser?

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