O que esperam os jovens do mercado de trabalho?

A empregabilidade dos jovens em Portugal não é de todo uniforme, mas ainda assim acredito que somos nós que criamos as oportunidades.

Lembro-me da primeira vez que me perguntaram o que queria ser “quando fosse grande”. Nunca tive uma resposta muito romântica para dar. Na verdade, nunca soube muito bem o que queria ser. Terminei o ensino secundário com uma média de 19.8 valores e decidi licenciar-me em Economia. Foi a melhor decisão da minha vida (ainda que a minha família achasse que medicina seria o caminho certo).

Passados alguns anos, lembrar esta pergunta faz-me sorrir. Hoje, questionam-me o que procuro numa empresa, numa organização, no mercado de trabalho. Para ser franca, esta questão já me foi colocada por diretores de recursos humanos de grandes empresas em Portugal e na Europa, estudiosos na área de atração e retenção de talento e muitos empresários que continuam intrigados com “esta nova geração” e as suas expectativas e ambições. Não posso dar uma resposta única ou certa. Quando toca a escolhas, o “one size fits all” não funciona. Contudo, existem preocupações comuns e desejos que surgem na minha geração, e que entusiasmam e desafiam as empresas.

Hoje, mais do que escolher uma profissão, queremos encontrar o nosso propósito (um sonho que era encarado como “hippie” há uns anos atrás, e que atualmente revoluciona a forma como encaramos o mercado de trabalho). Hoje, só faz sentido pertencer a uma organização em que sintamos que acrescentamos valor, e que contribuímos para algo maior do que nós mesmos. E, em última instância, este fator tem tanta influência, que altera a motivação com que trabalhamos e a taxa de retenção das empresas em todas as áreas de negócio. É certo que existem competências e valores que não passam de moda em qualquer ecossistema: Ser boa pessoa, disciplinado, curioso, trabalhar arduamente, ter pensamento crítico, ser apaixonado. Mas o mercado de trabalho transforma-se com a mudança de mindset das pessoas que o constroem e hoje, acredito que a maioria dos jovens não procura uma oportunidade em que a sua maior preocupação seja pagar as contas ao final do mês.

Hoje, eu, com 21 anos, procuro empresas em que tenha oportunidade de fazer mudança acontecer, onde as minhas ideias tenham “voz” e onde possa discutir os meus pontos de vista com o meu manager ou CEO, sem qualquer constrangimento. Já me perguntaram se o fator mais decisivo na escolha da minha carreira estará relacionado com a minha remuneração. Não esteve, não está, e acredito que não estará. Se for confrontada com duas oportunidades de trabalho, será para mim decisivo a qualidade de vida que poderei ter, como poderei gerir as minhas prioridades, a possibilidade de internacionalização e progressão na carreira, o ambiente e cultura da equipa e empresa em que serei integrada, e no limite, os valores pelos quais lutarei enquanto parte da organização na busca de um mundo melhor.

Mais importante que escolher o “logótipo” de uma empresa, trata-se de escolher as pessoas com quem trabalhamos: Que nos desafiam intelectualmente, que acreditam em nós, que nos levam a ousar ser melhores e evoluir enquanto trabalhadores, membros de equipa, cidadãos e individuais. As empresas são feitas de pessoas e é por isso que acredito que se devem recrutar aqueles que acreditam nos valores da organização e não na forma como essas organizações se tornam lucrativas.

É certo que esta não é a realidade de todos os jovens em Portugal, que as taxas de desemprego jovem são ainda um problema por resolver, e que esta é apenas a minha humilde visão sobre o mercado. Contudo, esta visão transformadora e “renovada” pode ser chave para o sucesso de muitos jovens que entram agora no mercado e que terão cerca de 40 anos de trabalho pela frente (dependendo das escolhas de cada um).

A propósito desta questão, há uma xilogravura de que gosto particularmente e que penso ser perfeita para continuar esta reflexão (agora entregue à responsabilidade de cada um): A Grande Onda de Kanagawa (mais conhecida como “A Onda”). O seu autor, Hokusai, brinca com a perspetiva fazendo com que a maior montanha do Japão pareça apenas um pequeno triângulo quando comparado com a onda que pintou. Para além de todas as interpretações que podem surgir desta obra, fascina-me como o seu autor demonstra que as grandes questões às quais dispensamos por vezes toda a nossa energia, nos podem distrair da verdadeira “onda”.

Com isto quero dizer que os jovens devem ousar alterar a perspetiva acerca desta questão do que “esperam do mercado de trabalho”. Empresas, hospitais, governos, escolas, famílias, relacionamentos, são construídos pelas pessoas. Isso significa que no limite, são as pessoas que constroem o que será o mercado de trabalho.

É verdade que a empregabilidade dos jovens em Portugal não é de todo uniforme, mas ainda assim acredito que somos nós que criamos as oportunidades, que é pela nossa ação que começa a mudança e que somos nós que escrevemos o nosso próprio destino (até porque o que não falta neste país, são organizações cheias de profissionais à procura de jovens dispostos a fazer).

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