Editorial

Web Summit. O que fazer com 11 milhões de euros

O Web Summit deste ano foi uma realidade virtual em tudo, menos nos 11 milhões de subsidiação pública.

Web Summit. Primeiro dia do evento que se vende como o maior do mundo da tecnologia (e cobra por isso, mais exatamente 11 milhões de euros ao Estado português), e um dos convidados mais esperados era o Chief Tecnological Officer do Slack, Cal Henderson. E porquê? A plataforma de mensagens instantâneas, muito usada no universo da tecnologia, acaba de ser comprada por outra empresa, a Salesforce, por 27,7 mil milhões de dólares. Mas a expectativa saiu frustrada, porque a conversa online foi gravada há semanas e o tema nem sequer foi abordado. É um exemplo de que, no final do primeiro dia, já é possível dizer que este modelo de conferência tem um impacto… quase virtual.

O Web Summit deste ano — tomado cada vez mais pela política e cada vez menos pela tecnologia e empreendedores — seria sempre uma operação de difícil execução no contexto da pandemia e suscitaria sempre enormes dúvidas sobre o racional de investimento do Estado. Afinal, Portugal investe neste evento para estar no mapa mundial da tecnologia e da inovação, e para assegurar que milhares de empreendedores e de líderes globais visitem Lisboa durante uma semana. Com este modelo, nem uma coisa nem outra. Porque o Web Summit, tal como está montado, com investimento numa plataforma própria, é basicamente uma transmissão online (gravada previamente) e uma emulação do modelo live. Não funciona. A sério, quem é que quer mesmo ouvir a presidente da Comissão Von der Leyan num discurso de 20 minutos a olhar para para uma câmara? E uma sucessão de painéis, via zoom, que se seguem sem sequer tempo para respirar?

A lista de oradores impressiona, e há mesmo muita gente para ouvir, mas o modelo zoom torna impossível o cartão de visita que é vendido por Paddy Cosgrave para justificar o apoio público de 11 milhões de euros, o network, os contactos que permitem trabalhar oportunidades nas semanas e meses seguintes, seja com investidores ou com outros empreendedores.

“Times may be uncertain, but one thing remains true. There’s a simple power in people coming together. That’s why Web Summit is going online this December”.
Web Summit

O Web Summit deste ano não existiu. E na prática, o que o país está a pagar, os 11 milhões de euros, serve apenas Paddy Cosgrave e o seu negócio, não serve os interesses da comunidade empresarial, financeira e empreendedora nacional. Não serve para criar, serve para distribuir. E o fundador do Web Summit apressou-se a lembrar-nos que há um contrato e que até poderia receber 25 milhões se houvesse uma quebra de contrato (quem terá feito isto?). Além disso, já percebemos que haverá ‘Web Summits’ por esse mundo fora, Lisboa deixa de ser exclusivo e assim perde valor.

Fui dos que apoiei o acordo feito entre o Governo e o Web Summit para manter o evento em Portugal. Mesmo tendo em conta o valor do negócio, e por uma década, as contrapartidas que poderiam resultar da criação de condições e incentivos para o empreendedorismo, para a atração de investimento estrangeiro (e algum chegou), justificariam o esforço. Mas a pandemia e a multiplicação de eventos de Paddy Cosgrave mudaram as regras do jogo.

Qual é a alternativa? Percebe-se que o modelo online não serve os propósitos, não justifica esta subsidiação pública (e há tantas maneiras para investir 11 milhões de euros), portanto, um caminho possível é mesmo a realização de encontros mais pequenos em Lisboa, presenciais e com transmissão global, ao longo de 2021 e com algumas figuras suficientemente relevantes para pôr Portugal no mapa, para sinalizar que há um ecossistema favorável à inovação, ao investimento, ao risco…

PS: Na verdade, talvez estejamos a ser apenas ingénuos… na semana do Web Summit e da inovação, o leilão para o 5G está num caos, e há um regulador, a Anacom, que quer ser um operador de mercado. E como se isto não bastasse, o Orçamento do Estado é aprovado com o apoio de um partido comunista, portanto, a parceria certa para travar qualquer ideia de reforma e de incentivo à competitividade empresarial.Isto é mesmo para levar a sério?

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