O retrato da desigualdade digitalpremium

De cada vez que ouvirmos falar na globalização da humanidade, convém ter em conta este número: um terço do planeta ainda não sabe o que é a internet.

A agência das Nações Unidas para as telecomunicações avaliou o estado do mundo no que toca ao acesso digital. As conclusões, embora animadoras, mostram o quanto está por fazer – e apresentam um retrato útil do que se passará também em Portugal. A verdade é que a internet tem potencial para atingir o mundo todo, mas ainda está longe disso: 2,9 mil milhões de pessoas nunca usaram a internet. Destes, 96% estão nos países em desenvolvimento. E as barreiras digitais ainda se notam em cada país: naturalmente há uma barreira no que toca ao poder financeiro dos utilizadores, mas também há ainda uma clara desigualdade no acesso à internet entre homens e mulheres, habitantes de zonas rurais e urbanas, possuidores de educação avançada e semi-letrados e entre novos e velhos.

A pandemia deu origem a um salto de 17% de utilizadores de internet. Mas ainda assim é importante notar que muitos dos utilizadores atuais fazem-no com acesso limitado: ou através de dispositivos partilhados ou com ligações muito rudimentares, que não permitem explorar uma verdadeira experiência digital. Não está no relatório, mas vale a pena acrescentar que, para muitos, o acesso à internet ainda consiste apenas no acesso ao Facebook (graças ao programa Internet.org, que oferece ligação à rede mas limita o acesso a outros sites). Pior ainda, a grande maioria dos utilizadores com acesso à internet apenas a usa para tarefas tão básicas como enviar um anexo num email. Só 23% dos países tinham mais de metade da população a ultrapassar a barreira das tarefas básicas.

A leitura deste relatório é útil também para compreender o que se passa em Portugal. Com uma população bastante envelhecida e com baixos níveis educativos, a barreira digital é real em Portugal. Mais de 25% da população portuguesa está acima dos 65 anos e apenas 21% têm o ensino superior, sendo que grande parte dos habitantes do interior têm idade avançada. Isto faz dos habitantes idosos do interior potenciais excluídos de serviços que migram cada vez mais para o digital, e isso torna impossível o acesso a oportunidades que dependem da internet – como a aprendizagem e o trabalho.

E há uma outra consequência, talvez pior: torna-os alvos privilegiados de fraudes e abusos online. Como obviamente a camada digital não vai desaparecer e só se vai tornar mais importante, importa perguntar o que queremos fazer com a larga parcela de portugueses que não usa a internet nem está preparado para o fazer. Desistimos deles? Ou tentamos transmitir o básico para que possam ao menos sobreviver com um módico de cidadania digital? Talvez um novo governo se disponha a olhar para este aspeto, que não é de pormenor.

Ler mais: O relatório da International Telecommunication Union foi produzido com uma versão interativa que vale bem a pena consultar.

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