Vegetais na Vibe do Telemóvel

A Europa reúne-se em Israel para o certame anual da Eurovisão. O contraste entre as duas Europas não pode ser maior.

Em Portugal a campanha para as Europeias é uma “sirene no nevoeiro”. Um contínuo inflamado que mata animais e vegetais com o silvo macabro da ignorância, desonestidade, tristeza, pequenez, provincianismo, paroquialismo e o pecado metafísico da mentira a céu aberto. Sobra o deserto dos deuses falsos.

Por esta altura a Europa reúne-se em Israel para o certame anual da Eurovisão. O contraste entre as duas Europas não pode ser maior. A Europa de Bruxelas que se passeia em aventura portuguesa na forma de um circo político é a configuração de uma ideia sem destino, de um destino sem sentido, de um sentido sem futuro. A peça infantil nas tardes políticas da cidade representa o argumento dos Bons que combatem os Maus, os Cavaleiros da Justiça Social contra os Guerreiros dos Ricos Especuladores, com promessas de que o Paraíso Climático destruirá o Paraíso Fiscal, com um elenco insondável de Traidores e um exército imparável de Heróis. Em Portugal vagueiam Heróis Mutantes que se caracterizam pelos dois braços esquerdos; e Vilões Mutantes que deslizam sobre duas pernas direitas. A fabricação do discurso político contamina a atmosfera entre o Zero e o Infinito, utiliza a Bola de Cristal e o Espelho Côncavo, e cada português vê a imagem distorcida e hipnótica de um País reduzido ao ridículo de uma existência na Grande Feira da Fantasia. Uma tortura para quem pensa, uma tristeza para quem sente. Os Cínicos que se manifestem ou se calem para sempre.

Por esta altura a Europa reúne-se em Israel para o certame anual da Eurovisão. No palco da Europa, em Tel Aviv, Portugal está representado por uma figura saída de um Biombo Namban. Subitamente, num tempo enigmático, a figura histórica transforma-se no eco de uma melodia que se eleva da rua de um bairro suburbano. Do Museu à Periferia é um salto de um instante, um instante de uma identidade incompleta, complexa, estranha, peculiar, fugidia. Os feixes de som que cruzam o palco fazem-nos Amar Amália, mais o expressionismo de António Variações, o Mistério das Vozes Árabes, o Muezim, a sutura de uma Guitarra, o Canto Andaluz, os Fumos do Oriente, os Ritmos do Kabuki, as Planícies de África, a Viagem de um Mouro. A figura vestida de verde com recorte de Samurai corta o cenário, uma complexa geometria de vermelho e preto em devaneios de arabescos quase góticos, enquanto um écran reproduz a imagem de uma rosa que se abre num movimento perpétuo. O Portugal que se pode ver é filho dos fragmentos do tempo, um espelho estilhaçado na paragem de um autocarro, a Cidade Velha que absorve a Cidade Nova, o Fado como correio caótico do Planeta Electrónico. Milhares de discursos sobre o Multiculturalismo, sobre o Encontro das Civilizações, sobre a superior capacidade de assimilação do Ocidente, tudo resumido em três minutos fora do tempo numa escala sensível à Identidade e estranha à Realidade. O discurso político da Igualdade é desfeito pelo rumor estético de uma canção que, na sua infinita Pluralidade, projecta os sons constitutivos de uma cultura portuguesa feita de tudo e feita de nada, como se Portugal fosse uma casa sem nome porque dele são todos os nomes do Mundo.

Os Telemóveis são metáforas do Mundo Moderno. Símbolos do pesadelo tecnológico, símbolos do raciocínio político progressista, os Telemóveis são um dos protagonistas mais formidáveis da batalha do nosso tempo – a guerra sobre a natureza da realidade. No Registo Notarial da Invenção Virtual, os Telemóveis associam à liberdade humana o direito de proclamar a ortodoxia e de inventar a heterodoxia, contra e a favor de todas as regras do senso comum, chegando a negar uma Existência, a criar uma Personagem, a afirmar que dois e dois são cinco. Engana-se o Tempo como se engana um Homem.

Em Portugal os Telemóveis ligam para o Céu para saber quem mata a Saudade ou se quem morre somos nós. É a derivação do Mito Fundador da Identidade em formato pós-moderno, a tentação de saber se as Saudades são do Futuro ou se as Saudades são a marca da extinção de uma vida falhada. Portugal vive no pedestal deste destino superlativo, desta ideia de uma Idade de Ouro suspensa nos acidentes da História e nas contingências de uma chamada perdida, na indiferença de uma mensagem extraviada no correio atmosférico que hoje liga todas as almas e todos os espíritos. E nunca as almas estiveram tão sós e os espíritos tão ansiosos. Esperar pela Saudade é esperar pelo Futuro. Com o Amor de um Anjo Portugal disparou a flecha que matou a Saudade. Portugal sabe que matou a Saudade e sabe que a vida não vai ligar nunca. Matar a Saudade para podermos eternamente esperar pela Saudade. Em Tel Aviv o Samurai vestido de verde morreu na Esperança e na Saudade. Em Lisboa, junto ao Rio, não há culpa, nem lamentos, nem vislumbre de remorsos.

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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