Os comunistas imaginativos e os outros

  • Mónica Marques
  • 23 Maio 2020

Enquanto a Opera de Paris (místico q.b.) deverá permanecer fechada até 2021, ficamos a saber que o Governo arrisca uma outra divisão: os comunistas imaginativos e os outros.

Um beijinho para quem, como o primeiro-ministro, António Costa, acha que a Festa do Avante ainda é um ato político porque se formos ver com atenção, há anos que o PCP não se posiciona politicamente. Pelo menos nas questões ditas importantes da sociedade atual.

Qual a posição do partido em relação ao aborto, ao casamento homossexual, à igualdade de género, à camada do ozono, aos 17 ODS? Por mais politicamente incorreto que seja dizer, aquilo a que temos assistido ao Partido Comunista fazer nos últimos vinte anos não tem quase significado e pouca repercussão social.

O Partido Comunista está para o país hoje, como aquelas retrosarias de bairro, antigas, pelas quais gostamos de passar quando nos sentimos poéticos porque nos lembram outros tempos e fomos muito queridos pelos nossos avós, mas onde já não se encontra sequer um dedal.

Não quiseram ou souberam adaptar-se… Sim, isto não deixa de ser um pouco triste e bem podemos começar a pensar num plano de comunicação estratégico que permita aos comunistas ter tração no online, porem-se espertos para não terem de vender ainda o idílico Edifício Vitória, na Avenida da Liberdade, a uma qualquer imobiliária francesa, aquela do neto imaginário do Cohen Bendict.

Devíamos entusiasmá-los a pronunciar-se sobre o glúten free, era um pouco mais animador; ou sobre as condições dos empregados fabris da H&M, da GUESS e da Calvin Klein, na Etiópia: ficava-lhes bem e sempre falavam na roupa manchada de sangue que satisfaz a vaidade pindérica da classe média e os instintos neoliberais de todos os povos do mundo, uni-vos em hiper consumismo. Exceção ao povo da Coreia do Norte que, de facto, pelas imagens televisivas, precisa de roupa nova.

O misticismo associado ao Avante não se coadunará com os exemplos alemães de eventos musicais em drive-ins para cumprir o distanciamento social. Uma boa Festa requer algum suor, contacto físico e, definitivamente, não é nem tem de ser a experiência mais higiénica do mundo. A não ser que, em 2020, não vá haver abraços entre camaradas subitamente acometidos de pandemic shame, e se cante “A Internacional” sem sair dos 20 metros quadrados para a esquerda, ou para a direita aquela regra governamental para todos os outros eventos em recintos ao ar livre.

Enquanto a Opera de Paris (místico q.b.) deverá permanecer fechada até 2021, já que as regras de segurança recomendadas no protocolo cultural para o desconfinamento assim o exigem, no Brasil, Bolsonaro divide a humanidade em três: os filhos, os tolos e os comunistas. Nós, com a possibilidade absurda da realização da Festa do Avante, em 2020, ficamos a saber que o Governo arrisca uma outra divisão: os comunistas imaginativos — que, no meio de toda a discussão sobre as regras do desconfinamento, estão muito além e nós — e os outros, o inferninho sartreano que daqui a bocado vai buscar o take away com medo de ir ao restaurante. Vai ser: Lasagna de courgette, com puré de ervilhas e mozzarella, acompanhada de tomate cherry confitado. Já agora, glúten free.

  • Mónica Marques

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