Os riscos do 5G

A nova tecnologia de comunicações tem um imenso potencial e tem também enormes riscos de segurança que devem ser prevenidos. O que está em jogo é demasiado importante.

A tecnologia 5G promete finalmente cumprir a fusão entre o real e o digital, aproximando estas duas dimensões onde se produz e consume informação. O potencial é imenso e há muito a ganhar com a sua implementação. Se o 5G cumprir a promessa, a latência desaparece – o que quer dizer que entre a emissão de uma ordem e a sua execução não há qualquer intervalo de tempo relevante. Isto vai levar a que a utilização da tecnologia seja muito mais intensa, tal como a partilha de informação por canais exclusivamente digitais. É a tecnologia que promete concretizar a quarta revolução industrial.

Mas isso significa uma série de riscos acrescidos, que vão para lá do problema chinês (a esse já lá vamos). Quanto maior for o número de dispositivos ligados à rede, maior o risco. E isto ocorre quer a nível individual – nos aparelhos domésticos, por exemplo – quer também ao nível nacional, com infraestruturas inteiras em risco (como as grelhas nacionais de eletricidade e o controlo do transporte aéreo). Claro que um otimista verá nisto uma oportunidade, olhando para o imenso crescimento das empresas de cibersegurança. Mas um realista não pode deixar de se preocupar com os imensos riscos, especialmente tendo em conta a forma como se está a implementar a tecnologia.

O 5G está a ser implementado em cima da infraestrutura tradicional de 3G e 4G, apesar de ter maiores exigências de funcionamento e de permitir que tudo aconteça muito mais rápido. Ora, isso configura um enorme risco de segurança por causa das falhas que estão nos sistemas originais – e que serão mais facilmente exploradas num sistema com mais aparelhos ligados e com muito maior velocidade de execução.

Nos Estados Unidos a preocupação com o problema é tão grande que até já decorreram discussões sobre a nacionalização da infraestrutura de 5G, que seria construída de raiz. A ideia não vingou porque o lobby das telecomunicações é demasiado poderoso – e porque estas empresas preferem fazer primeiro e corrigir depois.

A lógica é essencialmente a mesma que tem imperado desde o advento da era digital e resume-se no slogan original do Facebook: “move fast and break things”. Não se quer perder tempo e tem-se preferido corrigir os erros depois de eles acontecerem, o que neste caso é extremamente perigoso.

Na prática, construir o 5G por cima da tecnologia de comunicações tradicional é o mesmo que fazer auto-estradas por cima dos antigos caminhos romanos – mantendo a largura original das vias e sem reforçar os solos, que acabará por causar buracos e fissuras que darão origem a acidentes gravíssimos. Mas a pressão é tanta que mesmo a União Europeia está mais preocupada com a competitividade das suas empresas do que com a segurança a longo prazo das comunicações e só lá mais para o final do ano deve tomar posição sobre os riscos de segurança. E nem os riscos para a saúde, que estão mal avaliados, fazem a União mudar de atitude – enquanto vários testes em cidades europeias são suspensos precisamente devido aos potenciais riscos para a saúde dos cidadãos.

E voltamos à questão da China, que é um novo risco de segurança a somar aos outros. É preciso ser direto: a Huawei é uma entidade obscura que obedece às ordens do Partido Comunista Chinês, tendo cimentado uma posição relevante na indústria à custa de fortes subsídios governamentais e de políticas pouco claras.

Tudo aquilo a que a empresa tenha acesso e seja relevante para Pequim acabará por lá chegar e será ingénuo pensar o contrário. Nestas condições é uma loucura colaborar com a empresa chinesa e é pior ainda dar-lhe acesso à construção desta infraestrutura – o Governo português, tal como o alemão e o canadiano, andam a brincar com o fogo. E seria melhor pensar no que está em causa antes de tomar decisões que podem sair muito caro, mesmo que pareçam mais baratas.

Ler mais: o melhor livro não-técnico sobre as questões da cibersegurança e da geopolítica é o Perfect Weapon: War, Sabotage and Fear. Escrito por um jornalista do New York Times especializado em segurança interna, a obra parte da interferência russa nas eleições americanas de 2016 para expor o estado de fragilidade global que as novas redes de comunicações abriram. É daqueles livros que tira o sono, graças à seriedade dos riscos que anuncia.

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