Editorial

Paula Amorim à procura de uma segunda vida para a Galp

Carlos Gomes da Silva sai da Galp em rotura com Paula Amorim, a meio do mandato. A principal acionista da petrolífera não terá uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão como chairwoman.

Carlos Gomes da Silva foi presidente executivo da Galp durante seis anos e nunca deu uma entrevista a explicar a sua visão para uma companhia que está do lado ‘errado’ do setor da energia e está a fazer a transição para as renováveis. Não foi seguramente por causa disto que o gestor sai da petrolífera em rotura com Paula Amorim, a chairwoman e principal acionista, mas talvez explique alguma coisa. E sobretudo sai com o ónus de ter falhado.

Não é todos os dias, não é quase nunca, que um presidente executivo de uma das maiores empresas portuguesas sai a meio do mandato, mas isto diz mais dos acionistas do que do gestor., mesmo de um gestor silencioso E exige mais explicações do que a tradicional justificação de que sai por razões pessoais.

O mandato de Carlos Gomes da Silva começou mal, e pela equipa. No dia 12 de julho de 2019, tinha o gestor acabado de tomar posse para um mandato de quatro anos há poucos meses, e o ECO Insider, a newsletter exclusiva para assinantes, revelou os primeiros sinais de confronto:

  • “O que se passa na administração da Galp Energia? A nova comissão executiva e o conselho de administração da companhia petrolífera tomaram posse há poucas semanas e, embora não pareça, houve mais mudanças do que se possa pensar. E a mais importante todas foi a menos visível: Paula Amorim assumiu, definitivamente, a liderança da companhia.Paula Amorim já era a líder de direito, como chairwoman que sucedeu ao pai, Américo Amorim, e como principal acionista, e passou a ser a líder de facto, com uma intervenção direta e pessoal na escolha da nova equipa de gestão. A executiva e a não executiva. E, diga-se, à margem do próprio presidente executivo, Carlos Gomes da Silva. As gestoras Susana Quintana-Plaza e Sofia Tenreiro entraram na comissão executiva de Carlos Gomes da Silva, e para não executivos foram quatro caras novas, das quais a mais conhecida foi Adolfo Mesquita Nunes.

    O processo não foi do agrado de Carlos Gomes da Silva, e por isso, a prazo, poderá haver mudanças. O gestor não exclui a possibilidade de sair da Galp Energia e de vir a ter um desafio numa companhia internacional. É o que o próprio já confidenciou em círculo restrito. Como está inscrito no site corporativo da empresa, Carlos Gomes da Silva “é membro do Conselho de Administração da Galp desde 2007 e vice‑presidente do Conselho de Administração e presidente da Comissão Executiva desde abril de 2015”. ECO Insider, newsletter exclusiva para assinantes

A equipa estava partida, e a pressão para acelerar os investimentos nas renováveis é enorme, e protagonizada precisamente pela gestora espanhola, escolhida por Paula Amorim. As tensões mantiveram-se e até se agravaram, a pandemia, a crise e os resultados também não ajudaram. Só em 2020, a Galp perdeu mais de 40% de valor em bolsa (a EDP Renováveis valorizou mais de 130%). E nos primeiros nove meses de 2020, a Galp registou 45 milhões de euros de prejuízos. Neste período de nove meses, os lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA) afundou 37%, para 792 milhões de euros. A queda é, “sobretudo”, o reflexo dos “menores preços de petróleo no período, apesar do aumento da produção”, justifica a empresa.

Há outro problema de fundo, maior do que os efeitos da pandemia. Quando não há um alinhamento entre o principal acionista, e que tem uma intervenção na Galp típica de uma empresa familiar, e o líder executivo, dificilmente haveria condições para outro desfecho. Ainda assim, uma mudança de presidente executivo a meio do mandato numa empresa cotada como a Galp indicia o pior. Sobretudo quando o gestor já está na companhia há anos e o que mudou foi o líder, que passou de Américo Américo para Paula Amorim.

Em outubro passado, outra vez no Insider, reservado a assinantes, o ECO revela o desfecho que agora é oficial:

  • Já não são um segredo as divergências entre Carlos Gomes da Silva, presidente executivo, e Paula Amorim, a chairwoman da petrolífera e maior acionista em nome do grupo Amorim. O atual mandato termina em dezembro de 2022, mas há quem antecipa mudanças já na próxima assembleia geral, entre março e abril de 2021. As próximas semanas vão ser reveladoras do que vier a suceder na equipa de gestão”. ECO Insider, newsletter exclusiva para assinantes

Em nenhuma das notícias, com espaço de mais de um ano entre elas, a Galp ou os seus acionistas deram alguma explicação. O silêncio diz tudo sobre o estado a que chegaram as relações entre Carlos Gomes da Silva e Paula Amorim.

Carlos Gomes da Silva tinha sido uma escolha de Américo Amorim. Paula Amorim manteve a escolha, mas agora, depois desta decisão, vai ter uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão. Escolheu um gestor do chamado ‘upstream’ que esteve 35 anos no setor petrolífero, 20 dos quais na Shell, Andy Brown, um perfil que surpreendeu tendo em conta que a primeira, segunda e terceira prioridade é acelerar a transição energética. E, como principal acionista, tem a responsabilidade de dar uma saída a uma empresa que tem pouco tempo para entrar no setor da energia verde e para se aproximar do que estão a fazer outras companhias petrolíferas globais, com bolsos muito mais fundos e acesso a capital que estão a secar o mercado das oportunidades disponíveis.

Há dez anos, a Galp Energia valia em bolsa mais ou menos o que valiam, somadas, a EDP e a EDP Renováveis, hoje é o que se sabe (mesmo tendo em conta que uma tem mais de 80% da outra), s renováveis valem três vezes a Galp, diferença que se acentuou particularmente nos últimos três anos. A ‘nova’ Galp vai ter de rodar ativos, mudar mesmo de negócios, encontrar oportunidades nas renováveis, solar ou outra, e assumir riscos. É mesmo isso o que Paula Amorim quer?

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