Perceber poucochinho destas eleições

As análises políticas estão quase todas à partida inclinadas para o lado em que a luz favorece a atual solução governativa e, em especial o PS.

Uma pessoa vê, ouve e lê as análises aos resultados das europeias e chega rapidamente à conclusão de que percebe poucochinho de política e, mesmo, de aritmética. Aqui deixo uma série de conclusões supostamente indiscutíveis que ontem ouvi e que hoje fazem manchete.

  1. A abstenção subiu. Não subiu, não. Votaram mais 30.000 pessoas do que em 2014. Se o número de inscritos não tivesse sido estupidamente inflacionado pelo recenseamento automático dos inscritos nos consulados, a abstenção teria sido de 65,7%, ou seja, 0,4% menos má que a de 2014. E alguém ainda me há-de explicar como é que um país com 10,3 milhões de habitantes, consegue ter mais de 9,2 milhões de eleitores residentes com direito de voto Não estou a dizer que não haja problema de abstenção, apenas que o problema vem de trás e não piorou.
  2. O BE teve uma grande vitória. Não teve, não. O BE atinge 9,8% numas eleições em que tudo esteve a seu favor, a começar pela implosão de Marinho e Pinto que deixou 219.000 votos à procura de um lar. O que faz o BE? Fica abaixo dos 10,2% obtidos nas legislativas de 2015 e perde 223.000 votos! Será um bom resultado, até porque descola do PCP, mas chamar isto uma ‘grande vitória’ é uma desconsoladora falta de exigência.
  3. O PS teve uma grande vitória. Não, não teve. Ou então se teve, António Costa deve um pedido de desculpas (e 5 anos de retroativos do salário de secretário-geral do PS) a António José Seguro. Em 2014, a margem de vitória de Seguro sobre uma coligação que reunia toda a direita democrática foi, segundo o atual primeiro-ministro, “poucochinha” e isso legitimava o valente chuto nos fundilhos que Costa queria aplicar no seu antecessor. Quanto era, exatamente, essa margem poucochinha? Recordemos e contemos: o PS teve 31,46%, a coligação PSD/CDS teve 27,71%, ou seja, uma diferença de 3,75%.

    Fast forward para 2019, a direita não vai coligada e dois novos partidos vêm disputar o mesmo espaço. O PS alcança 33,39% (sobe apenas 1,93%) e o conjunto da direita democrática (PSD + CDS + Aliança + Iniciativa Liberal) chega aos 30,87%, ou seja, uma diferença de 2,52%. A vitória do PS não só não foi ‘grande’, como, pelos critérios de 2014, foi ‘poucochíssima’.

  4. A direita teve uma grande derrota. Não teve, não. O PSD tem, de facto, uma derrota histórica, e o CDS um resultado mau, mas a direita no seu todo subiu. Percebe-se que o PSD (e nesta campanha o CDS também) está-se a esvair-se sem perceber como fazer oposição a um pragmático hábil como António Costa e com uma falta de ideias novas (como é possível deixar que o tema das alterações climáticas se torne um exclusivo da esquerda?!) e sem protagonistas mobilizadores.

    Mas, no seu conjunto, o espaço não-socialista, representado nestas eleições pelos dois partidos tradicionais da direita aos quais se juntaram o Aliança e o Iniciativa Liberal, teve 27,71% em 2014 e passou para 30,87%. Subiu 3,16%, mais do dobro da subida do PS. Não estou a dizer que a direita tem um bom resultado (30,87% é péssimo), apenas que o problema vem de trás e não piorou.

  5. O PCP teve uma grande derrota. Não, não teve. Teve um desastre eleitoral. Para quem não tenha reparado, a CDU teve o pior resultado de sempre – de sempre! – em qualquer eleição nacional legislativa, autárquica ou europeia, com apenas 6,88% e 229.000 votos (metade do pessoal que vai festejar um título no Marquês). Se juntarmos a isto a notória perda de controlo sobre os ‘movimentos laborais de massas’, bem como a erosão da imagem de incorruptibilidade de que o PCP gozava, estão reunidas as condições para acelerar a já prevista substituição de Jerónimo de Sousa. Quem diria, ver o PCP a ter de mudar com os tempos, sob pena de seguir o caminho de todos os outros partidos comunistas por essa Europa fora.

Poderíamos falar de outras questões, já que estas eleições levantam outros interessantes. Dou como exemplo a luta que já se verifica pelo prémio “Eu defendo o Ambiente melhor que tu” entre o BE, o PAN (uma surpresa importante que merece ser entendida), o Livre e Os Verdes, cuja utilidade enquanto parceiro dos comunistas na CDU desapareceu de vez.

Também mereceriam análise as desilusões dos resultados da Aliança (face ao orçamento de campanha) e do Basta! (face à expectativa de uns e aos receios de outros). Em especial, tenho pena de não tratar aqui de uma matéria de grande perda cultural para o imaginário de muitos: o princípio do fim do MRPP.

Não sou o primeiro, e muito menos o único, a achar muito desgastante esta sensação de que, nos últimos tempos, as análises políticas estão quase todas à partida inclinadas para o lado em que a luz favorece a atual solução governativa e, em especial o PS. Pode ser inconsciente, pode refletir as opiniões dominantes nas redações, pode até ser um tributo genuíno à capacidade política de António Costa. Mas é bom ter consciência que esta crescente falta de escrutínio e de responsabilização contribui para uma certa esclerose de ideias e, por isso, faz de Portugal um País mais ‘poucochinho’.

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