Porquinho mUElheiropremium

Quando a UE deixar de dar dinheiro ou reduzir substancialmente a quantia, é provável que o amor português pela UE desapareça, e com esse amor, tudo o resto que a UE nos poderia ter dado.

Portugal foi o primeiro país da União Europeia a entregar o projecto para receber os fundos europeus de apoio à economia. Foi também o primeiro a vê-los aprovados. No momento da cerimónia em que o projecto foi aprovado, numa daquelas piadas que revelam mais do que muita conversa séria, o primeiro-ministro António Costa perguntou imediatamente à presidente da Comissão Europeia se “agora já podia ir ao banco”.

Nós às vezes esquecemo-nos da oportunidade que a União Europeia é para o nosso país. Temos acesso a um espaço onde bens, pessoas e capital circulam livremente. As nossas empresas podem vender os seus bens a consumidores alemães quase com a mesma facilidade como vendem a consumidores portugueses. Os profissionais portugueses podem facilmente encontrar emprego em algumas das economias mais competitivas da Europa e trazer essa experiência para cá. A capacidade de exportarmos bens para qualquer parte da UE e de podermos importar os seus melhores especialistas é uma tremenda vantagem para atrair capital de todo o mundo, incluindo da própria UE. É um espaço de tremendo potencial para uma pequena economia aberta.

Mas é mais do que isso: a União Europeia é uma oportunidade para fortalecermos as nossas instituições. Temos relações próximas com países com instituições muito mais fortes que nos podem ajudar a solidificar as nossas. As próprias regras da União Europeia podiam-nos ajudar a fortalecer processos internos e tornarmo-nos mais fortes e resilientes como país.

No entanto, apesar do grande mercado potencial para exportações, neste século Portugal aproveitou as facilidades de crédito garantidas pelo acesso ao Euro para alimentar enormes défices comerciais (até 2011). Apesar do enorme potencial de atracção de investimento estrangeiro em resultado da pertença ao espaço comum, e dos exemplos da forma como outros países aproveitaram essa oportunidade, Portugal mantém um regime fiscal pouco atractivo, impedindo o país de aproveitar todo esse potencial.

Já as regras da União Europeia nunca são vistas como uma oportunidade de melhorar as nossas instituições, mas sim como obrigações impostas pelos “déspotas neoliberais de Bruxelas”. As regras de rigor e transparência impostas por Bruxelas raramente são vistas como uma oportunidade, mas sempre como um empecilho. Empecilho para quê? Para a única coisa que o país parece querer da UE: dinheiro, muito dinheiro, quanto mais melhor. Dezenas de empresários dedicam-se à tarefa de mineração de guito europeu. Consultores e escritórios de advogados especializados conseguem fazer planos à medida para os clientes irem buscar uma parte disso. Os políticos (nível nacional e local) também anseiam por esse dinheiro para poderem mostrar obra com dinheiro que o país não tem. A UE para muitos não passa disso: um porquinho mealheiro.

Portugal é o último a aplicar as recomendações sobre corrupção e combateu até ao fim os limites do défice e da dívida, mas foi o primeiro a entregar o programa para receber fundos europeus. Esta obsessão com o dinheiro da UE tão bem simbolizada pelas palavras do primeiro-ministro é uma visão que se vai estabelecendo na política portuguesa.

Esta visão traz dois grandes problemas: O primeiro é desaproveitarmos todo o restante potencial da UE, em termos de melhoria de competitividade pelo acesso ao mercado único e melhoria das instituições pela comunicação entre as nossas e as de países com instituições historicamente mais fortes. O segundo é que a relação com a UE se torna oportunista porque o país parece disposto a qualquer cedência (lembram-se do abraço de Costa a Órban?) para receber esse dinheiro.

Quando a UE deixar de dar dinheiro ou reduzir substancialmente a quantia, é provável que o amor português pela UE desapareça, e com esse amor, tudo o resto que a UE nos poderia ter dado.

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