Portuball: a brilhante especialização que junta pão e circopremium

Circo não nos tem faltado. O que nos resta saber é de onde virá o ”pão”. Ao pedir-nos para nos focarmos no essencial, que é o futebol, Marcelo apontou o caminho: o nosso pão virá do circo.

Vamos começar pela frase completa dita pelo Presidente da República porque merece ficar registada: “Esta terça-feira é dia de futebol, e aqui estamos todos unidos em torno do futebol e, portanto, eu não vou agora estar a falar de outros temas, porque é desconcentrar o fundamental. Temos de estar focados, e estamos todos focados: o senhor primeiro-ministro, o senhor presidente da Assembleia da República, eu próprio, o senhor presidente [da Federação Portuguesa de Futebol] Fernando Gomes, os portugueses todos”,

E o contexto é este: os jornalistas estavam a perguntar a Marcelo sobre o combate à pandemia, em que condições é que o desconfinamento deve continuar ou ser travado e sobre o entendimento oposto que Presidente da República e primeiro-ministro tinham manifestado em público sobre isso.

Entre isto e um jogo de futebol da selecção, o Presidente da República não tem a mínima dúvida sobre o que é “fundamental” onde devemos “estar focados”. Ah, foi uma declaração circunstancial que não passa disso. Será que foi?

Fez esta semana um ano, o Presidente da República foi o protagonista de um dos episódios mais patéticos e despropositados da política portuguesa: o anúncio solene, feito às 20h00 no Palácio de Belém, da realização em Lisboa de oito jogos de clubes europeus. Ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa estava o presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro e mais uns três ou quatro membros do governo - mais uma questão de “foco” sobre o que é “fundamental”, presume-se.
É importante recordar o que então foi dito para justificar o circo: "este é um caso único e irrepetível", que "não tem preço" e “Portugal tem autoridade moral, pela forma como conduzimos o combate à pandemia, mas agora pela forma transparente como continuamos a combater a pandemia. E digo transparente porque não escondemos a nossa vontade de testar e testar mais, porque não escondemos que esse testar mais significa determinados valores". Palavras do Presidente da República que hoje soam, no mínimo, precipitadas.

Mais recentemente, percebemos que as grandes excepções às medidas de combate à pandemia são os eventos relacionados com o futebol: festejos nas ruas de Lisboa e, mais uma vez, a final da Champions, desta vez no Porto, com total abertura para a vinda de adeptos ingleses a quem foi permitido que quebrassem as regras impostas aos indígenas.

E para mostrar que este foco nas prioridades essenciais é uma estratégia de longo prazo e que isto é um todo coerente, já está em marcha a candidatura a meias com Espanha para a organização do Mundial de Futebol de 2030. Preparemos, pois, as nossas carteiras se tivermos o azar de ser os escolhidos.

Dar “pão e circo” ao povo como estratégia política central é tão velha quanto a própria política e desde o Império Romano que está devidamente estruturada. Mas, como percebemos, ela mantém-se muito actual.

E se de “circo” e da sua abundância estamos conversados, o que nos resta saber é de onde virá o ”pão”. Isso não estará no “foco” dos responsáveis políticos enquanto uma bola ainda a rolar nos relvados a menos que na cabeça deles um e outro sejam a mesma coisa: o nosso pão virá do circo?

Por estes dias, Elisa Ferreira resumiu como estamos de pão: “Neste momento, é penoso ver que Portugal, com estes anos todos de apoio, ainda está dentro dos países atrasados”.

É penoso, vergonhoso e, só por si, deveria ter ter provocado há muito um sobressalto suficiente que nos permitisse reagir à mediocridade que nos mantém estagnados há mais de duas décadas.
A comissária europeia portuguesa, agora com uma maior abertura de lente proporcionada pela sua posição em Bruxelas, já caiu na real.

No momento em que a preocupação é ir ao banco levantar os milhões do Programa de Recuperação e Resiliência que vão chegar de Bruxelas, preparamo-nos para repetir a fórmula que nos trouxe até aqui: o essencial do PRR é para o Estado e, neste, para muitos projectos de betão que estavam parados em gavetas à espera de dinheiro.

É este, para já, o nosso modo de vida. Virá mais uma pazada de dinheiro da Europa que nos vai mantendo entretidos em empreitadas, planos estruturais disto e daquilo, negócios para muitas empresas e empregos mantidos à conta disso.

Depois disso, lá continuaremos no “grupo da coesão”, a designação simpática para os países que estão muito abaixo da média e continuam a receber apoios. No nosso caso, como andamos nisto há mais de 30 anos sem resultados visíveis, temos que equacionar se não nos viciámos já nesta subsídio-dependência da Europa e se teremos capacidade para nos curarmos.

A alternativa que os dirigentes políticos nos estão a apontar é a de nos especializarmos, de facto, “no circo”: Portugal, a grande arena de eventos futebolísticos e afins da Europa.

O modelo está testado. Seremos uma espécie de off-shore fiscal e regulatória para todos os que queiram vir. Aqui não se cobram impostos para estes eventos nem se impõem as regras que são exigidas aos nativos. O potencial de “naming” é grande: Portuball, Lisbola, Bola Douro e muitos outros que os peritos na matéria irão desenvolver.

E o povo vai seguindo, entre o subsídio europeu e a distração dos eventos. Teremos assim o foco garantido no que é fundamental porque o fundamental é o circo, como bem nos indicou o Presidente da República. E do circo virá o pão.

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