Poupança a derreter

A poupança é um dos principais ingredientes da prosperidade. A falta dela é um sinal de alheamento do futuro que a história mostra amiúde provocar grandes dissabores.

A taxa de poupança das famílias portuguesas há anos que permanece em trajetória descendente, estando presentemente perto dos níveis mais baixos alguma vez observados. Os números são ainda mais preocupantes quando notamos que uma parte muito substancial da poupança das famílias está associada à aquisição de habitação, pelo que se fosse retirada esta componente, a taxa de poupança estaria muito próxima de zero.

Taxa de poupança das famílias em percentagem do rendimento disponível (mm4t)

Fonte: Instituto Nacional de Estatística

Poupar para quê?

Existe um conjunto variado de fatores que ajudam a explicar a queda da poupança. Desde logo o baixíssimo valor das taxas de juro. De facto, para um povo muito conservador em matéria de investimentos, cuja fatia de leão do património financeiro se concentra em depósitos bancários e em produtos de dívida do estado, a incessante queda das taxas de juro contribui para a queda da intensidade aforradora dos portugueses.

Numa perspetiva mais estrutural, a progressiva erosão do regime de benefícios fiscais da poupança e a inexistência de pilares privados de formação de pensões de reforma no regime geral da segurança social não fomenta o aforro. De igual modo, a elevada taxa de posse de habitação da população portuguesa, ao transmitir uma sensação de maior segurança financeira, mitiga o valor percecionado da poupança.

Não obstante a pertinência dos fatores descritos, a explicação fundamental para o declínio secular da poupança em Portugal reside na interseção da teoria com a fé. Conceptualmente, a poupança serve sobretudo para suavizar o consumo ao longo do ciclo da vida, pelo que quanto maior for a incerteza relativa à evolução futura do rendimento disponível maior deveria ser o esforço de poupança e vice-versa. A aplicação deste preceito teórico à crença aparentemente cada vez mais arreigada na sociedade portuguesa de que o estado provê às principais necessidades da população – do berço até à urna – resulta no seguinte paradigma comportamental em matéria financeira: “poupar para quê?”

Em boa verdade, tal crença não é totalmente desprovida de racionalidade, dado o expressivo aumento do grau de proteção social em Portugal nas últimas duas décadas, para patamares estatisticamente indistintos dos observados na generalidade dos parceiros europeus. Acresce que a conjugação da despesa pública em proteção social, saúde e educação ascendeu, em 2017, a quase 30% do PIB e a mais de 60% do total dos gastos do estado (gráfico 2), o que revela uma considerável cobertura da ação social do estado.

Despesa pública por função (em % do PIB) – 2017

Fonte: Eurostat

Temerários ocasionais

Há qualquer coisa nesta história que não quadra: o grau de proteção social de Portugal é muito semelhante ao do resto da Europa, mas as taxas de poupança das famílias portuguesas não chegam nem à metade da média da área do euro. O que leva um sueco, por exemplo, a poupar em média um quinto do que aufere, quando o homólogo português nem um vigésimo do seu rendimento põe de lado (gráfico 3)?

Taxa de poupança das famílias em percentagem do rendimento disponível – 2018

Fonte: AMECO, Comissão Europeia

As taxas de poupança relativamente altas da generalidade dos países europeus revelam uma atitude conservadora relativamente aos grandes desafios estruturais que se advinham, como o envelhecimento da população, a sustentabilidade financeira do modelo social europeu e a perda relativa de influência da Europa no mundo e o correspondente risco de redução da capacidade do velho continente de garantir a manutenção da qualidade de vida dos seus cidadãos. Perante esta panóplia de ameaças potenciais, a disponibilidade de recursos financeiros gerados a partir de poupança, que possam ser usados para promover o conforto material das populações e para investir no potencial produtivo da economia, é um ativo que se pode revelar crucial num futuro que se assume extremamente incerto.

Por comparação à prudência da maioria dos povos europeus, os portugueses destacam-se como temerários em face dos riscos: os globais acima identificados, bem como os de pendor mais idiossincrático associados ao excessivo endividamento público e externo de Portugal, o que poderá criar grandes dificuldades em caso de uma crise financeira internacional que restrinja o acesso ao financiamento estrangeiro. Acontece que, como bem ilustra o gráfico 1, esta temeridade lusa, apesar de tudo, não é um traço estrutural perene, já que quando a ocasião aperta, como foi o caso no período da crise (2008-2013), os portugueses lembram-se das virtudes da cautela financeira e aumentam a poupança.

Conclusão

A poupança é um dos principais ingredientes da prosperidade. A falta dela é um sinal de alheamento do futuro que a história mostra amiúde provocar grandes dissabores. Portugal apresenta taxas de poupança muito baixas, quer em termos absolutos, quer quando comparados com a Europa. Esta circunstância reduz a autonomia do país no desenvolvimento do seu potencial económico e cria uma vulnerabilidade na sua capacidade de resposta a uma crise financeira internacional, pelo que o restabelecimento de níveis robustos de aforro das famílias deveria ser uma prioridade nacional.

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