Quanto nos custa a Geringonça?

Portugal é o único país da zona euro em que as taxas subiram em 2016 e, relativamente à Alemanha, o spread dos juros é superior a 400 pontos base. Quanto já nos custou a Geringonça?

Caro leitor: E se lhe dissesse que graças à Geringonça, em 2016 as taxas de juro da dívida pública foram as únicas da zona euro a subir? E que hoje pagamos quase o triplo do que pagávamos na primavera de 2015? E que esse aumento nas taxas de juro representa, face à dívida emitida no último ano, mais 200 M€/ano em juros? E que nos próximos 10 anos, esse encargo adicional de juros da dívida contraída no último ano, representa 1,8 mil M€?

Na passada quarta-feira, Portugal foi novamente aos mercados, para uma emissão a 10 anos, onde se financiou para três mil milhões € a 4,2%. Este valor de taxa de juro é o mais alto desde a saída do programa da Troika. E aproxima-se perigosamente do valor que tenho defendido como máximo para o financiamento da nossa dívida, que ronda os 4,5% (ver artigo “2017: Défice, dívida e Geringonça” e “Ainda o orçamento, a UTAO e a DBRS”).

Desde o final de 2015 que as taxas de juro portuguesas têm tido um motivo divergente das restantes dívidas públicas na zona euro. Embora os valores estejam historicamente baixos, isso resulta de dois efeitos. Primeiro, uma política monetária agressiva por parte do BCE, que tem mantido as taxas de juro cerca de dois pontos percentuais, abaixo do seu valor de mercado. Segundo, esta política do BCE resulta naturalmente de um contexto de inflação próxima de zero.

Portugal é o único país da zona euro em que as taxas subiram em 2016.
Desta forma, enquanto no verão de 2015 tínhamos uma taxa a 10 anos que rondava os 1,5%, desde 2016 que a taxa tem estado acima dos 3% (mais do dobro, portanto). E agora acima dos 4% representa quase o triplo.

Esta diferença entre taxas de juro na mesma maturidade (neste exemplo a 10 anos), é aquilo que se designa por spread. O spread é assim a medida de risco. Quanto maior o spread de Portugal face à dívida pública mais segura (que é a da Alemanha), maior é a perceção de risco dos investidores.

Assim, no verão de 2015 tínhamos spreads face à Alemanha, a 10 anos, de 150 basis points (bp) – ou seja, 1,5% -, durante o ano de 2016 esse spread andou em torno dos 300 bp (ou seja, 3%), e neste momento ronda os 400 bp (ou seja, 4%).

grafico_juros_sarmento

Fonte: IGCP

Ou seja, na passada quarta-feira, enquanto Portugal se financiava a 10 anos em 4,2%, a Alemanha financiava-se a 10 anos a 0,3%!
Mas quanto é que isso representa em números concretos? Vamos fazer algumas simulações.

O quadro abaixo apresenta as emissões de dívida pública em 2016, incluindo também a da passada quarta-feira (apenas a emissão de OT´s, ou seja, de médio e longo prazo), num total de 12 mil M€.

tabelas_juros-01

Vamos admitir 3 cenários e ver qual teria sido a taxa de juro destas emissões em cada cenário:

  1. O cenário mais simples: Portugal tinha mantido durante o ano de 2016 e janeiro de 2017 as taxas de juro que teve na primavera de 2015. Para simplificar, usemos apenas a taxa a 5 anos (que vamos arredondar para 1%, embora naturalmente quem consultar o mercado terá valores diários à volta desse valor), a taxa a 10 anos (com 1,5%) e a taxa a 20 anos (2%).
  2. Como as condições de mercado não são estáticas, vamos admitir que Portugal mantinha durante o ano de 2016 e até janeiro de 2017 o spread face à Alemanha que teve na primavera de 2015. Vamos arredondar os valores de mercado para 100 bp (1%) a 5 anos; 150 bp (1,5%) a 10 anos e 200 bp (2%) a 20 anos. Desta forma, às taxas de juro que a Alemanha teve no mercado neste último ano, somamos os respetivos spreads, em função da maturidade.
  3. Repetimos o cenário dois, mas agora usando os spreads que Portugal teve na primavera de 2015 face a Espanha: 20 bp (0,2%) a 5 anos; 50 bp (0,5%) a 10 anos e 80 bp(0,8%) a 20 anos. Ou seja, pegamos nas taxas de mercado de Espanha do último ano e somamos estes spreads.
    Que taxas de juro teriam tido as emissões feitas neste último ano? A tabela abaixo apresenta as taxas para o cenário 2 e 3 (no cenário 1 admitimos que as taxas se manteriam iguais, o que concordo não é muito realista, mas não deixa de ser um bom ponto de partida deste exercício).

tabelas_juros-02

E afinal, o que é que isto representa em euros? Quanto é que estamos a pagar a mais em juros?

Usando estes três cenários, é possível estimar quanto estamos a pagar a mais de juros anualmente nestas emissões, sendo que estamos a falar de mais 200 M€ de juros anualmente:

2017jan16_artigopiniao-03

 

E considerando a maturidade de cada emissão, quanto é que nos custa ao longo de todo o empréstimo e qual o valor atual líquido desse custo (ou seja, o custo hoje dos pagamentos futuros, usando 3,5% como taxa de desconto, dado ser o custo médio da dívida pública Portuguesa)?
Temos que durante a vida destes empréstimos, pagaremos a mais em juros cerca de 1,8 mil M€.

2017jan16_artigopiniao-04

 

Em síntese, e porque o artigo já vai longo e por isso peço desculpa aos leitores (aqueles que conseguiram aguentar até aqui):

  1. Portugal é o único país, que num contexto de política monetária agressiva do BCE, viu as suas taxas de juro aumentarem no último ano.
  2. As taxas a 10 anos durante 2016 foram o dobro da taxa a 10 anos do verão de 2015, e neste momento são quase o triplo.
  3. O prémio de risco face à Alemanha duplicou durante o ano de 2016 e agora é o triplo do que era no verão de 2015. Chegamos a ter 150 bp de spread, agora temos 400 bp.
  4. Face a isto, as emissões de 2016 e janeiro de 2017 custam anualmente mais 200 milhões de € do que custariam se as condições do verão de 2015 se tivessem mantido.
  5. Na vida dos empréstimos que fizemos neste ultimo ano, isso representa cerca de 1,8 mil M€ a mais de juros. Esse custo adicional de 1,8 mil M€ representa 15% do total da dívida contraída (12 mil M€). Esses 1,8 mil M€ ao longo dos próximos anos representam um valor hoje de 1,2 mil M€ (0,6% PIB).
  6. Esse custo hoje de 1,2 mil M€ representa 10% da receita deste ano do IRS.

Ainda considera que a Geringonça e a ambição desmedida de um homem sai barato? Mas, espere, isto é só o começo.

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