Quem nos ameaça a privacidade

Há manifestações contra as políticas francesas que limitam a privacidade, mas ninguém se manifesta contra os aparelhos intrusivos da Amazon ou as políticas invasivas do Facebook.

Ontem, milhares de pessoas saíram à rua em Paris para protestar contra a lei de segurança que Macron quer fazer passar — e quem tem um dos pontos mais polémicos nas restrições colocadas à erosão dos direitos individuais.

No que toca às questões de privacidade, a lei tem dois problemas: restringe a captação de imagens de elementos das forças policiais, numa formulação propositadamente vaga que vai permitir o ataque a cidadãos que captem e a órgãos de comunicação que difundam imagens de abusos pelas forças de segurança; ao mesmo tempo, permite a recolha indiscriminada de imagens de cidadãos, sem deixar clara a utilização das mesmas nem as restringir a autorizações judiciais.

Ou seja, é um ataque deliberado à privacidade e uma forma que a Europa ocidental não está habituada a enfrentar. Já o exército americano tem-se divertido a comprar os dados recolhidos de aplicações tão diferentes como as que sugerem orações religiosas ou que ajudam a arrumar a casa — de forma a construir perfis mais completos dos cidadãos.

Mas não é dos organismos públicos que vem a maior ameaça à privacidade. Não, como de costume, essa ameaça está firmemente alicerçada nos mecanismos de vigilância instituídos pelas maiores empresas tecnológicas do planeta. As práticas intrusivas do Facebook já foram demonstradas à exaustão, mas isso não impede que continue com comportamentos predatórios que aumentam o risco para o utilizador individual.

Ainda esta semana a rede social foi condenada a pagar 650 milhões de dólares a utilizadores do Illinois pelo abuso da sua privacidade. A história é reveladora: para testar as suas novas ferramentas de leitura biométrica, o Facebook utilizou as fotografias dos utilizadores daquele estado americano sem pedir licença, sendo apenas obrigado a pagar uma ínfima fração do lucro que terá com a utilização de mais este mecanismo de controlo social — com ele a empresa de Zuckerberg poderá encontrar os utilizadores em fotos de outras pessoas em qualquer canto da internet, de forma a traçar perfis mais fiéis que lhe permitam vender publicidade melhor dirigida a esses mesmos utilizadores.

Infelizmente, os atores do capitalismo monopolista conseguem sempre pensar em pior. Para confirmar esta ideia, basta ver o novo produto lançado pela Amazon, uma pulseira chamada Halo. O produto diz servir para recolher dados de atividade física para melhorar a saúde, mas inclui um microfone de alta sensibilidade para recolher tudo o que é dito — e, pior, avaliar a partir de um algoritmo que pretende definir o estado de espírito do utilizador.

Claro que o objetivo é acumular mais dados para fornecer tudo aquilo que se preveja que o utilizador possa querer. E, tendo em conta que a Amazon acabou de anunciar que vai começar a comercializar produtos com prescrição médica nos EUA (fazendo as cadeias de farmácias cair brutalmente em bolsa), é fácil prever o que aí vem: a transformação das drogas legais em produtos de grande consumo, aumentando ainda mais a inevitabilidade do uso desta plataforma comercial que se entretém a esmagar qualquer aparência de comércio local.

Ler mais: Visto que já sugeri aqui o livro incontornável sobre este tema, faço desta vez a sugestão uma sugestão de escuta. No podcast Exponential View de Azeem Azhar para a Harvard Business Review discute-se o fim da economia dos dados. A conversa tem a participação de Carissa Veliz, uma professora de Oxford que se dedica a estudar a ética em sistemas de Inteligência Artificial e por isso está especialmente habilitada para discutir o tema.

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