Receita para não promover populistas

Trump é uma lição sobre como os jornais ajudaram a colocar um populista autoritário no poder. Lá como cá, há muitos comportamentos que as redações devem mudar.

O debate presidencial desta semana nos Estados Unidos mostrou bem quão perigoso é ter à solta um político populista com tendências autoritárias. Com Portugal a entrar em regime de pré-campanha presidencial com um candidato extremista no boletim, vale a pena olhar para a história recente dos EUA para que se reflita nos erros do jornalismo que ajudaram a colocar Trump no poder.

O jornalismo não está ao serviço de uma qualquer objetividade ou verdades absolutas. O jornalismo está ao serviço da sua comunidade e deve ser parte ativa na construção do seu bem-estar. É já óbvio que a polarização da sociedade promovida por políticos como Trump é altamente perigosa para a coesão de um país e que a cultura de mentira oficializada por um detentor de cargo público é destrutiva. E há uma relação direta e simbiótica entre jornalismo e democracia: O jornalismo precisa da democracia porque sem ela é erradicado; mas a democracia precisa do jornalismo para sobreviver. Todos os líderes autoritários ou ditadores atacaram o jornalismo e construíram a sua própria versão da verdade que corroeu as sociedades – e, para ser claro, não se defende aqui que o jornalismo deva atacar essa mundividência, defende-se apenas que o jornalismo não a deve promover.

Quem tenha acompanhado o que se passou no sistema político-mediático dos EUA sabe que o que se está a passar em Portugal é, à escala, um decalque do que ocorreu para levar Trump ao poder e mantê-lo lá. A situação é a mesma: uma figura que aparece nas franjas do entretimento (seja em concursos ou em programas desportivos) decide capitalizar o seu capital de fama em votos, sabendo que vai arrastar atrás deles um sistema mediático pronto para a cilada.

Veja-se a utilização das redes sociais e de títulos que supostamente seriam de imprensa para lançar temas à discussão que depois se tornam dominantes, legitimando o discurso político sobre o tema – lá é o Breitbart, o Daily Caller e a Fox News, cá é o Notícias de Viriato e a CMTV, para além do Sol e do i. Outro bom exemplo é a utilização de frases, símbolos ou comportamentos extremistas, que depois vem dizer que foi um engano ou que nada daquilo está em causa ou até que é contra esse comportamento. Trump fez isso mil vezes, a última no debate com a referência aos grupos fascistas; por cá o nosso pequeno político fez saudações nazis em público e arranjou quem apresentasse propostas loucas em congressos para depois as vir recusar.

Tudo isto é feito para ganhar visibilidade – sabendo que os comentadores saltam histéricos de dedo em riste a acusar o político e os jornalistas fazem dezenas de notícias sobre a polémica. Resultado? Mais visibilidade, mais espaço nos média credíveis, mas discussão inflamada nas redes sociais. Tudo isto dá gás a narrativas que têm zero de legitimidade mas que os atores mediáticos limpam para consumo no espaço público. E depois as redes sociais fazem o seu papel: amplificam discussões, polarizam a sociedade, estimulam emoções básicas e capitalizam isto tudo graças à venda de publicidade e ao ciclo vicioso em que prendem os seus utilizadores.

O resultado em Portugal é que um grupo parlamentar de um deputado só tem muito maior exposição mediática que grupos parlamentares com 4 e 5 deputados, contribuindo para o reforço populista. Basta contar o número de “notícias” ou comentários sobre os partidos nos meios de comunicação credíveis. Infelizmente, a cultura dos cliques que foi instaurada nos média é culpada disto – e a grande maioria dos responsáveis das redações ainda não foi capaz de limpar este cancro editorial das mentalidades dos jornalistas. Mas também joga aqui um papel a ingenuidade associada a à vontade de denunciar – muitos jornalistas que vivem na sua bolha acham que noticiar um comportamento racista de um político afasta eleitores, quando pode ter precisamente o efeito contrário e contribuir para uma estratégia de vitimização.

Sim, o jornalismo e os comentadores estão a contribuir para a polarização da sociedade e para a promoção de extremistas. E não tem de ser assim. Nos EUA, onde esta discussão está mais avançada, há receitas para o evitar:

  • não dar a estes políticos mais destaque do que o estritamente necessário ou obrigatório por lei;
  • não normalizar comportamentos, propostas ou ideias tratando-as por igual e equiparando-as a outras que vêm de atores credíveis no sistema;
  • ter cuidado especial com os títulos, porque muitas vezes apenas estes são lidos e partilhados nas redes sociais e eles são usados como prova da legitimidade dessas ideias/personagens;
  • na medida do possível recusar diretos com atores políticos que repetem mentiras, porque é em regra impossível evitá-las ou desmenti-las ao vivo;
  • nomear os comportamentos de forma rigorosa, assumindo palavras como mentira e racismo quando isso for factualmente demonstrável e necessário;
  • não assumir sempre os dois lados de uma polémica, porque um facto cientificamente demonstrável não tem oposição credível;
  • quando é preciso expor uma mentira dita por um político eleito deve usar-se a técnica conhecida como “sanduíche de verdade”: começar por afirmar o que é verdade, depois noticiar a mentira, depois voltar a reforçar a verdade.

 

Ler mais: Um dos mais importantes estudiosos do jornalismo nos Estados Unidos é Jay Rosen, professor da NYU e autor de livros sobre os média. O seu blog Press Think ganhou o prémio da liberdade dos Repórteres sem Fronteiras – um dos seus posts mais recentes é dedicado a como lidar com Trump em tempos de campanha, simulando uma carta aos leitores por parte de uma direção editorial. Muito teria Portugal a ganhar se os diretores das maiores redações portuguesas fizessem o que ali está escrito.

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