Refletir sobre o Portugal do futuro

Há muitos anos que o país não tem um objetivo de futuro, e esse é um dos nossos mais onerosos défices. Desde que integrámos a moeda única, começámos a ficar para trás.

Portugal necessita de uma reflexão estratégica acerca do seu futuro. Nestes duros anos que atravessámos, fomos submetidos a um resgate internacional (o terceiro em 34 anos) e os incêndios de 2017 são duas das mais graves tragédias da nossa história. São acontecimentos relativos à nossa existência como país, que nos devem fazer refletir.

Estes colapsos não se podem repetir, mas as suas causas persistem e só as eliminaremos se as identificarmos e as enfrentarmos. Mas temos que ir mais longe e decidir que país queremos ser no futuro.

Há alguns anos, o Professor Freitas do Amaral lembrou que daqui a 26 anos o país celebra 900 anos de existência, e que seria importante identificarmos que Portugal queremos ser nesse momento.

Sempre que os portugueses foram chamados a um desafio estratégico respondemos com surpreendente sucesso, mas quando não existe um rumo perdemo-nos em questões menores e pormenores, e ficamos para trás.

Tivemos sucesso quando a visão de D. João II, de transformar Lisboa no entreposto comercial do oriente para a Europa, nos conduziu à Índia e à prosperidade. E também quando, em 1976, Mário Soares conduziu o país para a Europa, depois do ciclo secular atlântico e imperial. Foi assim quando Cavaco Silva estabeleceu o objetivo de integrarmos o mercado único e quando Guterres desafiou o país a integrar o euro: Respondemos sempre com a mais elevada eficácia e alcançámos sistematicamente os objetivos a que nos tínhamos comprometido.

Há muitos anos que o país não tem um objetivo de futuro, e esse é um dos nossos mais onerosos défices. Desde que integrámos a moeda única, começámos a ficar para trás e a riqueza de cada português passou de 84% da média europeia em 1999 para apenas 77%, onde desde há três anos nos encontramos.

Necessitamos de um desígnio que nos una e envolva a todos, de um objetivo mobilizador que nos anime e empolgue. Por exemplo, ultrapassarmos a média europeia de riqueza e passarmos a integrar o grupo dos países mais prósperos da UE daqui a 20 anos. Passar dos 77% atuais para 100% da média da europeia de riqueza por habitante, deveria ser o nosso desafio comum para os próximos anos.

Um objetivo desse tipo levar-nos-ia a definir, depois, objetivos intermédios e setoriais, para dez anos, para cinco e para cada ano. Por exemplo, definir setores económicos de investimento prioritário, aqueles em que podemos ser mais competitivos que os nossos parceiros. Modernizarmos os setores tradicionais onde fomos competitivos no passado e, por isso, poderemos sê-lo ainda mais, com segurança, no futuro. O turismo, a tecnologia, a agricultura, a pesca.

É indispensável resolvermos o drama de apenas 65% dos nossos jovens concluírem o ensino secundário, uma taxa muito inferior à da média da OCDE, que é de 82%. O conhecimento e a qualificação são a maior energia do futuro e o principal fator de criação de riqueza. Os recursos mais valiosos de um país são os humanos. Necessitamos de uma estratégia para a Universidade, transformando-a num fator de competitividade para as nossas empresas, atraindo os melhores académicos, tal como D. João II se rodeou dos melhores astrónomos e marinheiros do século XV.

É também necessário apostar nos nossos recursos mais qualificados, que são os jovens, e de inverter a trágica tendência à sua emigração. A geração da paixão da educação é, provavelmente, a maior vítima da nossa crise atual, o que é agravado pelo facto de não terem lóbi, nem sindicato, nem acesso à comunicação social, mas eles serão os protagonistas decisivos do Portugal do futuro.

Temos que assumir que nem nós, nem os nossos cidadãos, nem as nossas empresas, sofremos de qualquer capacidade diminuída para competir a nível internacional e que não necessitamos nem da proteção, nem da tolerância de ninguém. Estamos integrados no espaço económico mais competitivo do mundo e é necessário assumirmos que temos condições para competir com os melhores e que a nossa prosperidade e o nosso futuro dependem só de nós.

É essencial reconstruir a nossa aliança com os países de língua portuguesa numa base descomplexada, livres dos traumas e dos paternalismos do passado, assente numa base não apenas sentimental, mas de negócios com ganhos mútuos, de repensar a nossa vocação atlântica secular e de a rentabilizar, no seio da nossa participação no Euro. É urgente identificarmos as causas da vulnerabilidade do Estado aos lóbis e à sua captura pelos interesses privados, que nos conduziu ao colapso, e de refundar as bases de um Estado democrático forte e inclusivo.

O país precisa de uma base de recuo estratégico para a hipótese, ainda que remota e indesejável, mas que esteve próxima e ainda não está afastada, de desintegração do euro e de se preparar para resistir a uma nova crise internacional que é mais do que provável.

Um debate sobre o futuro de Portugal só terá sucesso se envolver os cidadãos, porque serão sempre eles que, com o seu trabalho, a sua exigência e a sua ambição, conduzirão o país a alcançar os objetivos a que se propõe. Esse debate não tem que ser conduzido pelo Estado, mas deve ser por ele patrocinado para que tenha visibilidade pública. Deve partir das universidades, das escolas, das fundações, dos sindicatos, das associações empresariais e civis, dos partidos. Todos os partidos têm o dever de explicar aos portugueses qual a sua visão de Portugal para o médio e o longo prazo.

Quando não se discute o futuro, degrada-se o debate político para os episódios do quotidiano e da disputa de culpas do passado. E esta falha faz o debate político invadir o funcionamento da administração e os pequenos episódios da sua operação. Essa fixação no acessório e contingente serve a intriga política, mas não interessa aos cidadãos, apenas os afasta da política.

A falta de um discurso sobre o futuro resulta da falta de líderes. Porque a qualidade dos líderes políticos mede-se pela sua capacidade de pensar o futuro do país em termos estratégicos. Um político que apresente uma visão de futuro e defina qual o estado a que pretende conduzir o país daqui a dez ou 20 anos é um líder, caso contrário pode ser um tático, mais ou menos habilidoso, um sobrevivente, mas nunca um líder.

Um líder é um fazedor de futuro, que é capaz de fazer o caminho por onde ninguém ainda passou e, ao mesmo tempo, é capaz de convencer os outros a acompanhá-lo, apesar da falta de trilho marcado no terreno.

Se não soubermos decidir o futuro que queremos, acabaremos por cair num destino que não desejámos.

Contribua. A sua contribuição faz a diferença

Precisamos de si, caro leitor, e nunca precisamos tanto como hoje para cumprir a nossa missão. Que nos visite. Que leia as nossas notícias, que partilhe e comente, que sugira, que critique quando for caso disso. A contribuição dos leitores é essencial para preservar o maior dos valores, a independência, sem a qual não existe jornalismo livre, que escrutine, que informe, que seja útil.

A queda abrupta das receitas de publicidade por causa da pandemia do novo coronavírus e das suas consequências económicas torna a nossa capacidade de investimento em jornalismo de qualidade ainda mais exigente.

É por isso que vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo rigoroso, credível, útil à sua decisão.

De que forma? Contribua, e integre a Comunidade ECO. A sua contribuição faz a diferença,

Ao contribuir, está a apoiar o ECO e o jornalismo económico.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Refletir sobre o Portugal do futuro

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião