Requalificação profissional, uma necessidade da era digital

O CEO da Zurich Portugal afirma que a velocidade da era digital implicará, cada vez mais, uma aposta transversal na requalificação profissional, flexível e continuada.

Complexo e necessário, o debate sobre o futuro do trabalho afigura-se como incontornável já hoje. No entanto, este tema continua rodeado de equívocos. A impetuosa evolução tecnológica em que vivemos alimenta o medo da extinção em larga escala dos empregos para humanos. Mas em vez de uma crónica anunciada de desemprego massivo, porque não mudar a perspetiva? A tecnologia tem de ser encarada como um repto à forma como nos organizamos social e profissionalmente e como o momento para nos empenharmos na requalificação profissional.

Se é previsível que a era digital faça extinguir um determinado número de profissões e que altere significativamente o contexto de outras, é igualmente realista que muitas outras profissões vão ser criadas para corresponderem aos desafios que já nos são colocados nas diferentes dimensões da vida privada, empresarial e social.

Tal como nas revoluções industriais anteriores, a evolução tecnológica vem alterar o modelo estabelecido de competências laborais. Há necessidade de novas competências, enquanto outras deixam de fazer sentido. Há empregos que efetivamente desaparecem, mas há outros que permanecem, restruturados pela tecnologia. E outros ainda que serão essenciais na economia do século XXI, mas que ainda não existem.

O recente relatório da Task Force “Work of the Future” do MIT, por exemplo, contraria a narrativa de que a automação vai diminuir os empregos disponíveis. O relatório antecipa que, nas próximas duas décadas, os países desenvolvidos terão mais empregos do que o número de adultos disponíveis para os ocupar.

Troquemos o medo da extinção dos empregos por uma tónica de adaptação. A maquinaria pesada de outrora evoluiu para uma tecnologia nano e integrada, com configurações praticamente ilimitadas. É uma tecnologia imediata, mas efémera. O que não resulta é rapidamente substituído, em ciclos saudáveis e inovadores de “destruição criativa”.

Estes são tempos tecnológicos fascinantes e, simultaneamente, desafiantes. Por isso, é essencial que as pessoas tenham a capacidade de se adaptar continuamente à velocidade da era digital.

O triângulo da requalificação profissional

É cada vez mais claro que a resposta ao desafio da requalificação profissional deverá privilegiar uma abordagem coordenada e corresponsável entre os diferentes vértices deste ‘triângulo’: colaboradores, empresas e universidades.

Os desafios da economia digital implicam que se reformulem as estruturas das empresas, que a oferta formativa seja ajustada e que se criem mecanismos para concretizar a requalificação profissional da mão-de-obra existente, contrariando o gap geracional e digital.

Mas é preciso ir mais longe. O atual sistema de ensino está desadequado perante a mudança de paradigma. Não chega reparar, é preciso repensar as bases. A aposta em novos programas de formação ao longo da vida, numa maior flexibilidade, em vertentes mais práticas e num foco maior em competências do que em diplomas são pontos de partida, certamente.

A necessária requalificação profissional pode ser o estímulo que falta para um diálogo orgânico entre universidades e empresas, procurando uma oferta formativa ajustada às expectativas e necessidades das organizações e, claro está, dos colaboradores. É também uma oportunidade de valorização do ensino superior no interior do país que, reajustado a esta nova realidade tecnológica, impactará a inovação da economia local.

Esta reflexão tem de ser transversal a todos os setores. Na área seguradora, abordar o futuro do emprego será também antecipar uma nova realidade de proteção social, desenhando soluções inteligentes que assegurem a proteção perante a mobilidade e requalificação profissional contínua, não descurando o aumento da esperança média de vida.

O debate sobre o futuro do trabalho será vital nos próximos anos. Não há respostas feitas, nem modelos pré-definidos. É necessário antecipar e reajustar à medida que a tecnologia continua a reinventar-se. Mas é importante que a requalificação se concentre também nas soft skills. Temos de melhorar a resistência à mudança, sem medos. Temos de ser melhores profissionais. Temos de ser melhores pessoas, mais humanas e com maior inteligência emocional. Só assim conseguiremos capitalizar o melhor da era digital. A confiança, o humanismo, a inteligência emocional e a era digital têm de dar as mãos e seguir o caminho da requalificação profissional juntos.

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