Salgueiro Maia teria vergonha dos dias de hoje

Cada nova notícia é mais uma machadada na incerteza do futuro de um regime que cresceu com Abril mas que pouco aproveitou da sua ética e dos seus valores.

Há pouco tempo li uma entrevista assustadora do criador do “político” Donald Trump ao El Pais. Steve Bannon traçava o cenário de uma Europa conquistada pela direita extremista que tem por chefes-de-fila Matteo Salvini e Viktor Orbán, homens sem escrúpulos no que toca ao aproveitamento da descrença das multidões nos políticos e partidos tradicionais. O consultor falava deles como novos deuses da lei e ordem e profetas dos tempos “dinâmicos” que vão perdendo os seus valores e se distanciam das instituições que sempre intermediaram a relação entre eleitores e decisores. São tempos terríveis quando se perde respeito por referências como a Igreja, a Justiça ou a Comunicação Social e o que é certo é que todas elas têm contribuído para a ascensão de novos xerifes que emergem sem sabermos muito bem quem são eles.

Também no diário espanhol li uma interessante peça sobre os 4 mil “elfos” que combatem nas redes sociais a propaganda enganosa de Vladimir Putin, interessado na desagregação da União Europeia para fortalecer o seu poder nesta nova arena geopolítica e para a qual se deu ao luxo de financiar o partido italiano de Salvini – tal como tinha feito com Marine Le Pen – com 3 milhões de euros. Dizia o líder destes piratas contra Putin, «não podes combater mentiras com mais mentiras ou tornar-te-ias num deles». Ora, todos sabemos como Trump ou Jair Bolsonaro ganharam eleições alicerçados numa máquina de “fake news” propagada por twitter ou whatsapp. Este é um dos maiores perigos das democracias modernas e os media tradicionais têm perdido influência e relevância também por muitos tiros nos pés e por ainda não terem compreendido ou arranjado o antídoto para a perda de leitores.

Portugal ainda não sofreu este ataque das redes sociais mas eleições aproximam-se e o paradigma pode mudar, até porque a erosão da classe política e o seu descrédito vão acentuando-se. Surgem novos projectos, aparecem novos rostos, mas a percepção pública é de que tudo pode mudar para ficar tudo na mesma, como no “Leopardo” de Lampedusa passado para o cinema por Luchino Visconti. A saga em episódios diários das nomeações de familiares e amigos no Governo, prática que não se limita ao PS e já ocorreu no passado com PSD e CDS, vem apenas banalizar a ideia de que a política está podre e as águas são lamacentas, algo que só contribui para a tal epopeia hedionda do surgimento de novos protagonistas que do vão de escada se podem alcandorar aos holofotes do poder.

Cada nova notícia é mais uma machadada na incerteza do futuro de um regime que cresceu com Abril mas que pouco aproveitou da sua ética e dos seus valores. Hoje, Salgueiro Maia, se fosse vivo, perguntaria se foi para este labirinto de falta de vergonha, de nepotismo, de corrupção, de acusações em jornais que depois nunca leva a detenções e prisões, que saiu do quartel e matou uma ditadura sem dar um tiro. É necessária uma nova revolução de seriedade, de verdade, de respeitabilidade, de honra, de probidade, também sem violência da maioria silenciosa que assiste a tudo, que paga todos os desmandos de banqueiros e negociatas sem qualquer estrutura ou rectidão e que todos os dias desconfia mais de quem se senta no Parlamento onde se devia lutar pela melhoria do bem comum, mas, afinal, se batalha apenas para a perpetuação de um “status quo” de impunidade e do salário que nunca ganhariam na sociedade civil ao fim do mês. São estas balas reputacionais dadas nos próprios que estão a assassinar o mundo que conhecíamos.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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