Sustentabilidade em tempos de Covid-19

  • Rui Pulido Valente
  • 25 Março 2020

Também a crise climática, o desperdício alimentar, ou mesmo, a plastificação do meio ambiente, têm tudo a ver com questões comportamentais e responsabilização do cidadão enquanto consumidor.

À primeira vista não parece ter nada a ver, mas se aprofundarmos o nosso olhar e ouvirmos aquilo que a crise nos tenta dizer, concluímos que tem tudo a ver! Tem tudo a ver porque nos obrigou, a todos, a olhar para a Sustentabilidade de uma outra forma, numa perspetiva mais individual e responsável.

O combate à pandemia tem sido feito com base nos comportamentos de cada um e no cumprimento das orientações dos profissionais de saúde. Não se tem tratado apenas de alterações temporárias e pontuais, mas mudanças que questionam todo um posicionamento do cidadão como consumidor.

A diferença é que estamos perante uma urgência e um fenómeno que depende fundamentalmente da atitude de cada um. Mas se refletirmos um pouco, também a crise climática, o desperdício alimentar, ou mesmo, a plastificação do meio ambiente, têm tudo a ver com questões comportamentais e responsabilização do cidadão enquanto consumidor. Acrescentaria ainda, e para puxar a brasa à minha sardinha: as nossas opções como consumidores de energia também têm tudo a ver com opções individuais que podem defender o ambiente e descarbonizar as nossas vidas.

De um momento para o outro, foi possível fazer o que, para muitos, seria utópico. Temos professores a lecionar à distância, temos profissionais em teletrabalho, temos redução substancial nas deslocações com reuniões a realizarem-se por teleconferência, temos quem se preocupe em criar soluções locais para evitar a excessiva centralização dos recursos, temos uma aferição, no terreno e na prática, da resiliência dos nossos territórios.

Quanto à energia e à opção por um comercializador verde e sustentável, também está ao alcance de cada um de nós através de organizações como Coopérnico, a única cooperativa de energia no mercado português. Uma solução que desenvolve também soluções locais para o problema global do aquecimento global e do efeito de estufa associado ao consumo de carvão e petróleo (de que as grandes empresas de comercialização de energia não se libertaram). A Coopérnico tem projetos de autoconsumo individual e terá, num futuro próximo, projetos de autoconsumo coletivo (Comunidades de Energia), que são a garantia para aumentar a autossuficiência energética para muitos consumidores.

Por outro lado, parece ficar evidente, neste momento, a multiplicidade das dimensões da Qualidade e a sua própria transversalidade como garantia da robustez do combate à pandemia. Qualidade da comunicação, Qualidade das relações, Qualidade das redes, Qualidade dos serviços, Qualidade dos equipamentos, Qualidade das pessoas, Qualidade das decisões, Qualidade da educação, Qualidade do conhecimento, Qualidade das relações de vizinhança, Qualidade dos próprios sistemas e processos, Qualidade da energia que consumimos – Qualidade de uma sociedade.

Esta pandemia trouxe à reflexão um conjunto de aspetos que têm estado de forma superficial na discussão pública, mas que, agora, exigem outro tipo de resposta. Enumeremos alguns desses temas:

1. Como se constrói a resiliência e que testes nos permitem aferi-la em cada um dos nossos territórios e práticas como cidadãos?

2. Será que estamos perante uma espécie de teste de stress à nossa forma de viver em sociedade e não apenas, ao Sistema Nacional de Saúde (público e privado), embora este esteja sob pressão preferencial?

3. Estamos preparados para dar uma resposta local a problemas globais como é o desta pandemia? Será que a concentração urbana e a desertificação deixaram vazia a resposta local colocando na ordem do dia a capacidade de adaptação das pessoas e a sua auto-organização? (exemplo da colaboração entre vizinhos para apoio aos mais idosos)

4. A resposta que tem sido dada, ao nível de uma melhor informação e rápida consciencialização e responsabilização dos cidadãos, é uma demonstração da qualidade das redes e capacidade de trabalho em equipa, demonstrando o quanto o país evoluiu nos últimos anos? (veja-se a colaboração entre as várias entidades)

5. A pandemia conseguiu, de uma forma rápida e objetiva, o que a crise climática procura há muito: uma ação concreta por parte das pessoas, aceitando e respeitando as orientações estabelecidas. Será que a crise do coronavírus é a resposta da natureza à ação do homem que está a levar a uma crise climática sem precedentes?

Termino com uma ideia: para ser melhor cidadão, teremos que ser consumidores mais conscientes e responsáveis, capazes de tomar decisões de escolha em múltiplos domínios. Um deles é o da nossa fatura energética, escolhendo um comercializador com princípios éticos sólidos e que nos dê garantias de que consumimos energia verde!

  • Rui Pulido Valente
  • Membro da Direção da Cooperativa de Energias Renováveis Coopérnico

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