Tentar matar o vírus com o mata-moscas

Powell não acerta, enquanto Lagarde acerta no próprio pé. E o vírus, esse, continua por aí a infetar os mercados, até arrase com a economia.

Costuma dizer-se que momentos de desespero exigem medidas desesperadas. Mas nem sempre é assim. E o que a Fed tem vindo a fazer perante a ameaça do coronavírus é a prova disso mesmo.

Depois de demorar uma eternidade a responder à guerra comercial, que abrandou de forma expressiva o crescimento da maior economia do mundo, Powell lá percebeu que tinha de dar razão a Trump, começando a reduzir os juros nos EUA.

Mas se foi lento a reagir à guerra de Washington com Pequim, agora o presidente da Fed está a exagerar na resposta ao ataque que veio de Wuhan. Com o Covid-19 a espalhar-se a uma velocidade alucinante na Europa, com Itália a ser agora o epicentro do vírus, a Fed usou duas balas em pouco mais de uma semana.

Primeiro, sacou da pistola para cortar a taxa de referência em 50 pontos. Agora, novamente sem qualquer aviso, disparou outro tiro, de forma ainda mais violenta, cortando a taxa em mais 100 pontos, para quase zero. Se da primeira vez a decisão acabou por ser um sinal de alerta, desta vez deu apenas mais razão aos investidores para entrarem em pânico.

Powell gastou quase todas as balas que tem na câmara da pistola. E o efeito foi o mesmo de quem está a tentar matar um vírus com um simples mata-moscas. Não teve impacto. Não acalmou ninguém. Pelo contrário. Só deu mais razão àqueles que veem este vírus a infetar de forma quase irreparável a economia global. Sim, a recessão é inevitável.

Não há como escapar a uma contração da economia mundial, semelhante ou até pior do que aquele a que se viveu após a crise financeira. Powell fez o que tinha de ser feito, mas o swing do “mata-moscas” foi completamente fora de tempo.

Powell falhou, mas não foi o único. Se se pode criticar a Fed, o que dizer do Banco Central Europeu? Dá quase vontade de dizer: “Banco Central do quê?”. Lagarde teve o seu primeiro grande teste e… falhou redondamente. Foi quase surreal ouvir a antiga presidente do Fundo Monetário Internacional, agora à frente da máquina de fazer euros dizer que já não tem muito mais para oferecer.

Correu-lhe tão mal que teve de ser “corrigida” por Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e até por Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, que nunca pensaram que o BCE lhes desse esse palco.

Como assim, o BCE tem a “caixa de ferramentas” vazia? Juros estão em zero? Estão. Mas, então e as compras de ativos? 120 mil milhões de euros extra até ao final do ano são trocos, assim como serão os 700 mil milhões de dólares da Fed.

Numa guerra contra uma pandemia como a atual, entrar em pânico é o pior que se pode fazer. Tem de se ter coragem. Tem de se saber impôr. Tem de se ser frontal ao admitir que vai ter um impacto brutal, mas dando a garantia de que se estará pronto a agir para ajudar a retoma.

Mais do que atos, muitas vezes estas guerras ganham-se com atitudes. Muitas vezes, bastam palavras. Basta um “whatever it takes”. Que saudades de Mário Draghi.

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