Fed anuncia novo corte surpresa de juros. Bancos centrais unem-se para manter o dólar

Há um novo mega pacote de estímulos monetários. Pela segunda vez este mês, o banco central dos EUA decidiu cortar os juros de surpresa e vai comprar ativos para tentar amparar a economia.

Os bancos centrais estão a reagir com um mega pacote para manter a liquidez dos mercados financeiros. A Reserva Federal dos EUA (Fed) anunciou o segundo corte surpresa nos juros, desta vez para um patamar próximo do zero e alinhou numa ação coordenada dos principais bancos centrais, incluindo o Banco Central Europeu (BCE), que visa amparar o dólar perante a disrupção que está a ser provocada pela pandemia do coronavírus.

“O surto do coronavírus lesou comunidades e rompeu com a atividade económica em vários países, incluindo os EUA. A Fed está preparada para usar o seu vasto conjunto de ferramentas para apoiar o fluxo de crédito para famílias e empresas”, refere um comunicado do comité de política monetária da Fed.

A entidade liderada por Jerome Powell cortou a taxa de juro de referência em 100 pontos base para um intervalo entre 0% e 0,25%. Este é o segundo corte extraordinário nos juros este mês, num período de fortes restrições à atividade económica. A Fed justifica a decisão com o peso dos efeitos do coronavírus na atividade económica dos EUA e diz esperar que os juros se mantenham nos níveis atuais até ter confiança numa recuperação.

O comité espera manter este intervalo até estar confiante que a economia resistiu aos recentes eventos e que caminha para conseguir atingir os objetivos de máximo emprego e estabilidade dos preços. Esta ação irá ajudar a apoiar a atividade económica, a robustez das condições do mercado de trabalho e o regresso da inflação para o objetivo do comité de 2%”, explica.

A decisão de cortar novamente juros de forma inesperada — o que não acontecia desde a crise do subprime em 2008 — foi aplaudida pelo presidente dos EUA, Donald Trump. “É um grande passo, estou muito feliz. Coloca-nos em linha com outros países. Há muita gente feliz em Wall Street”, afirmou o norte-americano, que tem criticado a Fed por considerar os juros demasiado elevados em comparação com regiões como a Zona Euro. No entanto, os futuros de Wall Street não indicam o mesmo entusiasmo: afundam 4% após o anúncio.

Compra de 700 mil milhões em dívida e alívio da banca

Os juros de referência são apenas uma parte da reação do banco central dos EUA. A entidade liderada por Jerome Powell anunciou ainda que vai comprar de ativos no valor total de 700 mil milhões de dólares, que abrangerá Treasuries e dívida hipotecária, numa espécie de quarto programa de quantitative easing. “A Reserva Federal está preparada para usar a totalidade das ferramentas para apoiar o fluxo de crédito para as famílias e para os negócios e, assim, promover os objetivos de máximo emprego e estabilidade de preços”, disse.

Em simultâneo, a Fed reconhece o “importante papel” da banca a manter a liquidez e estabilidade do sistema financeiro e anunciou, por isso, medidas de apoio para o setor. Incentiva as instituições financeiras a usarem a “janela de desconto” para se financiarem e repassem à economia através do crédito, baixando a taxa de juro em 150 pontos base para 0,25%. Reforçou a disponibilidade de crédito intradiário e reduziu ainda os requisitos de capital para incentivar os bancos a usarem as almofadas financeiras que têm.

“Desde a crise financeira global de 2007 e 2008, os bancos dos EUA acumularam níveis de capital liquidez substancialmente acima dos mínimos regulatórios”, lembra a Fed. “Estas almofadas de capital e liquidez estão desenhadas para apoiar a economia em situações adversas e permitir aos bancos continuar a servir famílias e negócios. A Reserva Federal apoia as empresas que escolham usar as almofadas de capital e liquidez para emprestar e tomar outras medidas de apoio”.

Estas medidas são semelhantes (numa escala mais alargada) às anunciadas pelo Banco Central Europeu (BCE) esta semana: menos juros, mais compra de ativos e menos requisitos para a banca. E os vários bancos centrais têm dito que estão a alinhar uma estratégia conjunta para responder à crise gerada pelo surto de coronavírus. Este domingo foi anunciada também uma ação coordenada, resultante desse alinhamento, com a Fed, o BCE, o Banco do Canadá, o Banco de Inglaterra, o Banco do Japão e o Banco Nacional Suíço a criarem uma rede de segurança para o dólar.

O grupo baixou a taxa dos contratos de crédito swap overnight do dólar norte-americano em 25 pontos base para garantir que a liquidez nos mercados financeiros não seca. Os bancos centrais irão ainda oferecer dólares nos respetivos países, semanalmente, com uma maturidade de 84 dias, além das operações com a maturidade de uma semana que são atualmente executadas. “A nova taxa e as novas maturidades vão estar em vigor durante o tempo que for necessário para apoiar o funcionamento do dólar norte-americano no financiamento dos mercados”, acrescentou a Fed.

(Notícia atualizada às 22h20)

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