BCE corta crescimento da Zona Euro para 0,8%. “Coronavírus terá impacto significativo”, alerta Lagarde

Instituição liderada por Christine Lagarde reviu em baixa as projeções de crescimento devido às implicações da pandemia. E admite que estas já poderão estar até desatualizadas.

O surto de coronavírus terá um “impacto significativo” na economia da Zona Euro e levou o Banco Central Europeu (BCE) a cortar novamente a projeção de crescimento económico da região para este ano. A presidente Christine Lagarde anunciou esta quinta-feira que a instituição antecipa uma expansão do produto interno bruto (PIB) de apenas 0,8% este ano, menos 0,3 pontos percentuais que o esperado nas últimas estimativas, em dezembro.

“Os últimos dados indicam um agravamento considerável das perspetivas económicas”, disse Lagarde. “A disseminação do coronavírus tem sido um choque enorme para as perspetivas de crescimento das economias global e da Zona Euro e tem pesado na volatilidade dos mercados. Mesmo que venha a ter uma natureza temporária, terá um impacto significativo na atividade económica”.

Após o crescimento de 0,8% esperado este ano, o BCE projeta uma expansão do PIB da Zona Euro cresça 1,3% em 2021 (menos 0,1 pontos percentuais face à anterior estimativa) e 1,4% em 2022 (inalterado face à projeção de dezembro). A presidente do BCE sublinhou que a pandemia está avançar rapidamente pelo que as projeções poderão até já estar desatualizadas. Ou seja, a francesa deixou a porta a novas revisões em baixas.

Já no que diz respeito à inflação, a elevada incerteza levou o BCE a manter as estimativas inalteradas, esperando que acelere 1,1% em 2020, 1,4% em 2021 e 1,6% em 2022. Além do coronavírus, “a queda recente nos preços do petróleo representa um risco significativo para o outlook de curto prazo da inflação”, afirmou, referindo-se à guerra de preços entre os maiores produtores de petróleo do mundo.

Recessão? Vai depender dos gastos orçamentais dos governos

Questionada sobre a possibilidade de uma recessão, a presidente do BCE não rejeitou que possa acontecer, tendo apontado para a “rapidez e força de uma abordagem coletiva”. Lagarde — que desde que chegou ao cargo, em novembro, tem chamado a atenção dos Estados para usarem política orçamental para estimular a economia — tem reforçado este discurso, dizendo que é necessária a intervenção dos governos da Zona Euro. Esta quinta-feira voltou a fazê-lo.

Governos e todas as outras instituições políticas são chamadas a tomar ações oportunas e direcionadas para responder aos desafios de saúde pública para conter a disseminação do coronavírus e mitigar o impacto económico. Em particular, é necessária uma política orçamental ambiciosa e coordenada para apoiar negócios e trabalhadores em risco”, afirmou Lagarde.

Do lado do BCE, foi anunciado esta quinta-feira um pacote de medidas para tentar travar o impacto do coronavírus. O Conselho de Governadores decidiu reforçar o programa de compra de ativos, com um acréscimo temporário de 120 mil milhões de euros até ao final do ano (além dos 20 mil milhões mensais atualmente em curso).

Governos e todas as outras instituições políticas são chamadas a tomar ações oportunas e direcionadas para responder aos desafios de saúde pública para conter a disseminação do coronavírus e mitigar o impacto económico. Em particular, é necessária uma política orçamental ambiciosa e coordenada para apoiar negócios e trabalhadores em risco.

Christine Lagarde

Presidente do BCE

A instituição irá igualmente melhorar as condições da terceira ronda de empréstimos temporários Targeted Longer-Term Refinancing Operations (TLTRO) III, que pretende apoiar a liquidez imediata do sistema financeiro. O juro será 25 pontos base abaixo da média e poderá baixar para bancos que deem mais financiamento. Estas operações irão decorrer entre junho de 2020 e junho de 2021 e, até lá haverá uma ronda extraordinária de empréstimos com as mesmas condições. O objetivo é aumentar a liquidez na banca e incentivar as instituições financeiras a financiarem as empresas mais afetadas pelo vírus.

Em simultâneo, há medidas também ao nível da supervisão bancária. O BCE aliviou o cumprimento das exigências de rácios de capital por parte dos bancos da Zona Euro, num esforço para assegurar que as instituições financeiras vão continuar a financiar as famílias e empresas da região. Adiantou também que as regras para os créditos em incumprimento dão aos supervisores nacionais flexibilidade suficiente para ajustar as medidas específicas para os bancos nesta matéria.

Ao contrário do que se esperava (especialmente tendo em conta os cortes surpresa anunciados pela Reserva Federal norte-americana e pelo Banco de Inglaterra), as taxas de juro que não sofreram quaisquer alterações. O conselho do BCE manteve a taxa de juro aplicável às operações principais de refinanciamento e as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de cedência de liquidez e à facilidade permanente de depósito inalteradas em 0,00%, 0,25% e −0,50%, respetivamente.

Revisão estratégica adiada. Reunião em teleconferência

Não são só as políticas do BCE que estão a ser influenciadas pelo surto e também o funcionamento interno está a ser alterado. O banco central já tinha anunciado que ia começar a funcionar em regime de teletrabalho, de forma a testar os planos de emergência preparados para enfrentar o surto do novo coronavírus. De acordo com os planos da instituição, os cerca de 3.700 funcionários do BCE já estão a trabalhar em regime de teletrabalho desde segunda-feira para testar os planos de emergência da instituição.

Lagarde anunciou que o board irá dividir-se em duas equipas pelo que a própria irá dividir funções com o vice-presidente Luis de Guindos. Já o Conselho de Governadores (bem como a conferência de imprensa que se segue) irá ser feito todo através de teleconferência. Na reunião desta quinta-feira, o português Carlos Costa já participou a partir de Lisboa, como confirmou o Banco de Portugal ao Jornal de Negócios.

Com outros problemas em mãos, a revisão estratégica do BCE ficará para segundo plano. O banco central arrancou em janeiro com a primeira revisão desde 2003, justificando que desde então verificaram-se alterações estruturais profundas na economia do euro e do mundo, apontando para a diminuição do crescimento e da produtividade, para o envelhecimento da população, bem como para o legado da crise financeira que levou à adoção de instrumentos de política monetária nunca antes usados.

A revisão estratégica está claramente adiada de momento. Decidimos em especial adiar por seis meses o primeira grande reunião que estava agendada para o início de abril”, acrescentou a francesa, na conferência de imprensa.

(Notícia atualizada às 14h50)

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