Editorial

Três anos de liderança no PSD serviram para quê?premium

Ainda ninguém percebeu muito bem para que serviram três anos de liderança de Rui Rio, a não ser para reduzir o número de debates parlamentares em que António Costa é obrigado a prestar contas.

Em política, diz-se, o que é verdade hoje não é verdade amanhã. E também se diz que a morte, em política, é sempre um prognóstico arriscado. Mas há probabilidades, e Rui Rio está no mínimo a testá-las. Rio está à frente do PSD há três anos e sempre que tem oportunidade de mostrar a diferença face a Costa... mostra as diferenças dentro do próprio partido.

António Costa está politicamente desgastado por esta crise de pandemia e pelos sucessivos falhanços na resposta política do Governo, mas as sondagens continuam a mostrar que há uma maioria relativa de portugueses que escolheria o secretário-geral do PS se as eleições fossem agora. E percebe-se porquê: Do outro lado está o líder do PSD.

Rui Rio até poderá vir a ser primeiro-ministro, a sua morte política poderá ser prematura, mas está mesmo a fazer tudo para não chegar lá. E disso, António Costa não tem culpa. E isto é dramático, porque não há mesmo alternativa. No caso de Rio, há uma coisa pior. Quem se deu ao trabalho de ler e ouvir as propostas que saíram do Conselho Estratégico Nacional, liderado por Joaquim Miranda Sarmento (economista, professor universitário e colunista aqui do ECO), vê diferenças de caminho, por exemplo nas prioridades do Plano de Resiliência e Recuperação. Mas depois, ouve-se Rui Rio e essas diferenças desaparecem, desvanecem-se nas suas palavras, na preocupação em ser um líder da oposição responsável, como se o escrutínio do Governo fosse anti-patriótico (há ministros, como a da Saúde, que dizem isso, mas não seria de esperar essa posição do PSD).

O líder do PSD tem três ou quatro obsessões que serviam para 'vender' nos três primeiros meses de liderança, mas já cansam quando passaram três anos. Não é igual aos outros, já anda nisto há muitos anos, sabe o que está a fazer e está pelo serviço público. Tendo em conta os resultados eleitorais, esta estratégia é no mínimo questionável, para não dizer outra coisa.

Neste momento, Rio deveria andar a correr o país a mostrar o seu plano de resiliência (nem que fosse de forma virtual), e o que o distingue do plano do Governo que é uma bazuca para o Estado e uma espingarda para as empresas. Mas não, agora a prioridade são as autárquicas, tática pura de quem diz que o país é a prioridade. O Estado vai ser outra vez capturado à conta de milhares de milhões nas mãos do Governo PS, o plano de resiliência não tem um único número que demonstre a sua utilidade para aumentar a competitividade do país, mas de Rio não se ouve nada, apenas as próximas eleições.

Rio parte de um resultado historicamente mau do PSD e definiu as eleições para câmaras e juntas como o 'alfa e omega' dos seus objetivos políticos. Percebe-se, já tivemos um Governo a cair a seguir a umas autárquicas, há exatamente 20 anos, o que não é bem o mesmo que dizer que caiu por causa dos resultados das autárquicas. Além de que Costa não é Guterres. E Costa vai ter uma bazuca, não é? Para agarrar, outra vez, um país que mais do que socialista, é mesmo estatizado. E dependente.

Rui Rio tem razão, a representação territorial de um partido é uma condição necessária para a sua afirmação nacional, mas se andou três anos a preparar o momento das autárquicas, convinha que unisse o PSD. Mas na entrevista que deu ao Observador, fez o contrário. Humilhou um presidente de câmara do PSD, Carlos Carreiras, e atacou o presidente independente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que ocupa o espaço do centro-direita. Nessa semana, soube-se também que vetou um candidato consensual do PSD a Coimbra, Nuno Freitas. De uma penada. E veremos quem apresentará a Lisboa.

Rui Rio pode continuar a seguir a estratégia de barricar-se no PSD até à queda de Costa, e em algum dia isso sucederá, mas isso não trará uma qualquer alternativa. Será, no final do dia, uma substituição entre 'irmãos'... E, à data de hoje, ainda ninguém percebeu muito bem para que serviram estes três anos de liderança, a não ser para reduzir o número de debates parlamentares em que António Costa é obrigado a prestar contas (mas isso, se calhar, não é o papel que cabe à oposição...)

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos