Um Nobel contra o Facebookpremium

A escolha de dois jornalistas para o prémio Nobel da representa uma defesa poderosa da imprensa de qualidade e do papel do jornalismo na manutenção das sociedades livres.

Há pelo menos cinco anos que Maria Ressa alerta contra os perigos de uma sociedade de informação dominada por plataformas cujo único fito é o lucro. A partir de Manila, ela viu acontecer em primeira mão tudo o que viria a destabilizar o ocidente: viu as manipulações de discurso, as contas falsas, a distorção da verdade, as ameaças ao jornalismo e os ataques às minorias. Dmitry Muratov é o diretor da Novaya Gazeta, o único jornal livre de toda a Rússia – que nasceu graças a um apoio simbólico graças ao valor recebido por Gorbachev quando foi Nobel da Paz. O trabalho de Muratov, em condições que são difíceis de entender para qualquer habitante de um pais ocidental em que a democracia funciona, é um testemunho da liberdade e da independência de pensamento. Por isso, este ano, o Nobel da Paz repousa mesmo em muito boas mãos.

Voltemos a Ressa. Em 2016 as Filipinas eram a linha da frente da guerra contra a desinformação: o programa do Facebook para levar a internet aos países em desenvolvimento fez com que, para a grande maioria dos filipinos, a rede social fosse sinónimo de internet. A eleição presidencial decorreu mês e meio antes do referendo do Brexit e seis meses antes das presidenciais que colocaram Trump no poder. E Ressa viu em primeira mão como as campanhas de desinformação e o populismo de Rodrigo Duterte contaminaram as redes sociais, com destaque para o Facebook, ajudando a eleger um presidente que começou imediatamente a atacar os princípios basilares do estado democrático. Duterte declarou guerra aos jornalistas e tomou Ressa e o seu jornal (Rappler) como alvo principal. As contas falsas que dominaram os processos de desinformação no Facebook começaram a exigir a sua detenção, quando não exigiam a violação e assassínio em público. Já esteve presa e ainda tem de responder por dez processos em tribunal por acusações de fuga a impostos e de difamação.

Maria Ressa começou logo em 2016 a alertar para o que estava a acontecer nas Filipinas e que poderia acontecer noutras partes do mundo. Infelizmente a realidade confirmou os seus medos e, quando o Capitólio de Washington foi invadido pelos manifestantes de Trump no início deste ano, confirmou-se a profecia: os líderes populistas que trabalham em conjunto com as redes sociais para partir o país ao meio triunfam pelo ódio que divide as sociedades.

Para o ano há presidenciais nas Filipinas. E os concorrentes já anunciados incluem Sara, a filha do próprio Duterte, para além de Ferdinand Marcos Júnior, filho do ditador que quase destruiu as Filipinas até ter sido destituído em 1986. O problema não é só a perversidade da lógica dinástica numa democracia. É que estas famílias detêm o controlo das máquinas de desinformação que são muito poderosas graças a um Facebook que equivale à internet para 97% dos filipinos. Ressa conta que no início de tudo isto falou com Zuckerber e lhe expôs a situação grave, pedindo para que fizesse alguma coisa; ele fez apenas uma pergunta: “porque é que os outros 3% não estão ainda no Facebook”?

Ler mais: Esta é uma recomendação para guardar na agenda, porque o livro ainda não foi publicado. Em Abril de 2022 vai sair o How to Stand Up to a Dictator, que é o relato na primeira pessoa de tudo o que Maria Ressa viveu nestes cinco anos. É uma história que valeu um Nobel, e terá um desfecho que vale uma democracia.

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