Editorial

Um plano cheio de (quase) nada

António Costa Silva apresentou a proposta de plano de recuperação da economia, com dezenas de propostas, mas sem uma conta. E a única coisa que vale mesmo a pena é o aviso para os próximos seis meses.

A história começou quando António Costa Silva, um engenheiro e gestor do setor privado, anunciou que tinha sido contratado por António Costa, ‘pro bono’, para coordenador do plano de retoma da economia pós-Covid-19. Sucederam-se as entrevistas e declarações, percebeu-se o mal-estar da oposição e dentro do Governo (Centeno até disse que nunca tinha falado com Costa Silva) e lá apareceu, à última hora, o contrato a formalizar a coisa. Passadas algumas semanas, aparece o dito plano, ainda sob a forma de proposta, e a primeira coisa que se pode dizer é que é uma mão cheia de (quada) nada. São 119 páginas, mas não há uma conta, são dezenas de propostas, mas sem um modelo de custo/benefício, são planos de investimentos setoriais que se multiplicam, uns óbvios, outros genéricos, outros anunciados há anos, mas não há financiamentos, menos ainda calendários de execução.

O ECO revelou em primeira mão a proposta de Plano de recuperação económica para a década. E, digo-vos, foi um esforço descobrir alguma coisa que fosse verdadeiramente novo, ou inovador. O plano tem uma primeira parte de radiografia (já lá vamos) e uma segunda parte dedicada aos eixos estratégicos do plano de retoma. Costa Silva é um gestor, mas é também um pensador de geoeconomia internacional, portanto, muito do que se lê ajuda à reflexão, mas é legítimo que qualquer um dos ministros se questione se foi para isto que foi necessário contratar um coordenador externo ao governo.

Há quantos anos se discute a alta velocidade entre Lisboa e o Porto? E as ligações ferroviárias em Espanha? Ninguém estaria propriamente à espera deste plano para descobrir que a ferrovia é essencial. Ou as referências à necessidade de um banco de fomento (já a alternativa, um fundo soberano, só pode resultar das influências orientais do gestor)? E o investimento em Sines ou na reindustrialização e reconversão industrial?

O plano, como seria de esperar, é mais desenvolvido nas áreas de competência de Costa Silva, como as infraestruturas ou a descarbonização da economia, do que noutras. Aliás, percebe-se que há propostas que são literalmente ‘metidas a martelo’, para que todos os ministros se possam rever no plano e nenhum fique de fora. Mas isso torna o plano desequilibrado. Um exemplo: Agora que se percebeu a importância do turismo, seria de esperar uma reflexão e propostas de medidas de fôlego para a década, mas o que se vê são generalidades, despachadas em meia dúzia de pontos.

Uma proposta de plano é isso mesmo, uma proposta, pode ser melhorada, e será seguramente, até porque não existe uma conta que se veja para suportar este plano. O financiamento da recuperação económica é mesmo um dos últimos pontos do plano e limita-se a elencar o que está anunciado a nível europeu. Mas esta proposta tem de ser outra coisa para servir os seus propósitos, ou então vai ser apenas mais um relatório para ninguém ler e menos ainda executar.

E há alguma coisa que fica deste plano? Ironicamente, o que vale mesmo a pena reter é a avaliação de Costa Silva sobre os próximos seis meses, apesar de ser um plano para a década:

  • “A partir de setembro de 2020, a situação de muitas empresas pode deteriorar-se significativamente e é fundamental existir no terreno um programa agressivo para evitar o colapso de empresas rentáveis, que são essenciais para o futuro da economia portuguesa. O espaço temporal que vai mediar entre a significativa deterioração da economia no segundo semestre de 2020 e a chegada da ajuda europeia em 2021, pode ser fatal para muitas empresas se não existirem respostas adequadas”. António Costa Silva

Portanto, talvez António Costa devesse contratar António Costa Silva para definir as prioridades dos próximos seis meses e detalhar o que são as “respostas adequadas”, e não exatamente dos próximos dez anos.

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