Uma Europa dividida?

O grande desafio do centro político (de centro-esquerda e de centro-direita) é voltar a recuperar a liderança política, oferecer soluções e esperança às pessoas, sem vender-lhes promessas ilusórias.

No próximo fim-de-semana os europeus são chamados às urnas para eleger os seus representantes no Parlamento Europeu. Infelizmente será num contexto de incerteza e de crescimento de movimentos populistas, extremistas e antieuropeus. Na noite das eleições iremos olhar para os resultados nacionais mais que para os resultados a nível europeu. Por um lado, é compreensível que assim seja. Até porque este ano as Europeias antecedem em poucos meses as Legislativas.

Em Portugal, as sondagens dão os partidos com representação parlamentar a eleger os 21 eurodeputados. Mas há alguns pequenos partidos que poderão surpreender.
A Aliança tem o seu primeiro teste, com um cabeça de lista, o Paulo Sande, muito forte nas questões Europeias, mas pouco conhecido dos eleitores. O mesmo para o Ricardo Arroja da Iniciativa Liberal (sendo amigo dos dois, embora não vá votar neles, sinto aquilo que McCain dizia a Obama em 2008: “I can´t wish you luck, but I do wish you well”).

Seria bom que os partidos radicais de direita, a começar pelo “Basta” (ou “Chega” ou como eventualmente se chamar ao albergue espanhol que constitui aquela lista) tivessem uma votação residual, inexpressiva.

Também seria bom que os partidos de extrema-esquerda em Portugal não tivessem quase 20% dos votos. Um sistema política desequilibrado para um dos extremos não augura nada de bom. E recorde-se que a extrema-esquerda em Portugal continua a ser antidemocrática, antieuropeia e anti NATO.

Creio que nestas eleições em Portugal os eleitores castigarão o Partido Socialista. Não só pela fraca capacidade do cabeça de lista. Mas também pelo facto de que o PS continua a ser constituído no seu núcleo duro pelos mesmos que estiveram no governo entre 2005 e 2011. Pelos mesmos que apoiaram José Sócrates até ao fim, mesmo quando o fim era já o pedido de resgate à Troika. Que estiveram com José Sócrates mas nunca perceberam as atividades criminosas (Berardo pode ter suscitado muitos pudores pela forma como se dirigiu ao Parlamento, mas foi apenas um mandante para o BCP de um grupo que pretendeu controlar todos os centros de poder em Portugal). Que estiveram com José Sócrates mas não perceberam que aquela política económica levaria o país à bancarrota.

Mas a penalização do Partido Socialista não se justifica só por isso (embora fosse suficiente). Justifica-se pela forma como governaram este 4 anos. Com uma consolidação orçamental ilusória (como referi aqui, 2/3 da redução do défice resultou da política monetária do BCE, com a redução da despesa com juros e os dividendos e IRC do Banco de Portugal), a carga fiscal mais elevada de sempre e os serviços públicos mais ineficazes e inoperacionais de sempre.

Mas a nível europeu, o cenário será diferente. Os partidos extremistas, populistas e anti Europa, sejam de extrema-direita, sejam de extrema-esquerda, terão uma votação expressiva, a fazer fé nas sondagens.

Os últimos anos provocaram mudanças significativas em diversos países. A começar na Grécia, onde o Syriza, radical de esquerda, embora agora mais moderado (Tsipras até apoia o Partido Socialista de António Costa), governa coligado com um partido de extrema-direita (os Gregos Independentes). O que não se diria se fosse um partido de centro direita a fazer esta coligação!

Na França, a Frente Nacional de Marine Le Pen e o partido de Mélenchon somam pelo menos um terço dos votos. Em Itália, o país mais perigoso da zona Euro (pela sua dimensão e pela perda de competitividade e crescimento desde que aderiu ao Euro), governado por uma coligação de extrema-direita. Depois há a Hungria, a Polónia e a Roménia (com governos acusados de violarem os direitos humanos e cívicos nos seus países). E Espanha, onde Sanchez provavelmente continuará a depender da extrema-esquerda do Podemos e dos independentistas para governar

Isto significa que o próximo Parlamento Europeu e a próxima Comissão Europeia serão diferentes daquilo que foi habitual nestas décadas.

O Parlamento Europeu estará muito mais fragmentado que o habitual. O mais provável é não haver uma maioria clara de centro direita ou de centro esquerda. Ora, esta fragmentação vai levar a que a escolha do próximo presidente da Comissão Europeia não seja tão rápida como é habitual. Isto significa que o próximo presidente da Comissão pode levar meses a ser escolhido e a conseguir ser aprovado no Parlamento. Mas também me preocupa a composição da próxima Comissão Europeia. Que tipo de comissários será indicado pelos países que atrás referi? Que tipo de compromisso com a União Europeia poderá ter um comissário indicado por governos que são suportados por partidos anti Europa?

Ou seja, nos próximos cinco anos teremos não só um Parlamento Europeu com um peso grande dos partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda, como teremos alguns comissários oriundos desses partidos. Ou seja, temos de estar preparados para um cenário em que a Comissão e a União poderão ter um período de impasse e poderão passar os próximos cinco anos ainda mais divididos.

Só que temos a questão central do Brexit para resolver. Temos uns Estados Unidos cada vez mais afastados da Europa e da NATO (peça fundamental para a paz na Europa, mesmo depois do fim da Guerra Fria). A pressão e concorrência da China. As questões ambientais, da digitalização, da inteligência artificial e da robótica. As questões fiscais e orçamentais. Uma política monetária num labirinto (não é possível descer mais as taxas de juro, mas a sua subida num contexto de desaceleração da economia Europeia terá efeitos muito negativos). Demasiados problemas para uma Europa cada vez mais dividida, descrente e entregue aos extremismos de direita e de esquerda.

Esse é o grande desafio do centro político (de centro-esquerda e de centro-direita). Voltar a recuperar a liderança política, oferecer soluções e esperança às pessoas, sem contudo vender-lhes promessas ilusórias. Se formos capazes, manteremos a Europa unida, em paz e em prosperidade. Se falharmos, talvez não se repita 1914 nem 1939, até porque as sociedades europeias estão hoje mais envelhecidas, menos militaristas e sem impérios. Mas teremos um período longo de retrocesso político, social e económico.

Post-scriptum: Ontem ao fim do dia, quando já tinha fechado este artigo e preparava-me para o enviar por email ao António Costa, diretor do ECO, recebi a noticia que Jerónimo de Sousa tinha dito que PSD e CDS são “tu-cá, tu-lá” com a extrema direita. Isto vindo de um Estalinista seria divertido se não fosse confrangedor. Jerónimo de Sousa e os militantes do PCP já deram vivas a muitos ditadores, da União Soviética de Brejnev, Andropov e Chernenko, a Cuba de Fidel Castro. Das ditaduras do Leste Europeu de Enver Hoxha, Honecker e Ceausescu à Coreia do Norte do clã Kim. Já muitos dos militantes do Bloco defendem (ou defenderam no passado) o trotskismo (bem como o Marxismo-Leninismo), isto é, o revolucionário Russo que, com Lenine, criou os campos de concentração, fuzilou, prendeu e torturou inimigos e adversários e criou na Rússia e depois na União Soviética uma ditadura. Lenine, tal como Trotsky, foi um ditador que abriu caminho à loucura psicótica de Estaline. Estão bem uns para os outros. Só não nos misturem com eles (que este PS se reveja nestes companheiros de coligação diz mais sobre o PS que qualquer outra coisa). O PSD nunca teve nenhum líder que algum dia tenha dito que admirava ou defendia qualquer ditador.

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