Uma Europa sem causas é uma Europa com más causas

A alternativa à promoção de causas positivas e ambiciosas é a morte por asfixia do projeto europeu às mãos de populistas prenhos de causas divisivas lesivas do futuro do povo europeu.

A Europa abanou, mas não quebrou. Esta é a leitura generalizada do resultado das eleições europeias, após a estoica resistência das famílias políticas europeístas ao avanço ameaçador dos partidos nacionalistas. A realidade, porém, é bem menos risonha. A Europa saiu destas eleições mais fragmentada. As mensagens políticas que mais mobilizaram os europeus foram de afronta ao sistema, quando não mesmo de declarado repúdio do projeto europeu, tal como ele existe.

É certo que as eleições não resultaram numa hecatombe dos partidos tradicionais, pelo menos não quando considerado o universo europeu na sua inteireza. Mas também não podemos ignorar a vitória de plataformas de resistência programática ao paradigma vigente de integração europeia em países como a França, o Reino Unido, a Itália e a Polónia – quatro dos seis maiores estados-membros da União Europeia e sem os quais não faz sentido conceber qualquer projeto pan-europeu.

Acresce que o desempenho dos partidos tradicionais neste sufrágio foi beneficiado pelo momento cíclico favorável da economia europeia, circunstância que se traduz, por exemplo, em níveis de desemprego relativamente baixos. Nesse sentido, a viragem do ciclo económico que se advinha para breve poderá exacerbar a dinâmica centrífuga das preferências políticas dos cidadãos e, com isso, condicionar o curso das políticas.

Outro aspeto saliente do desfecho das eleições foi a ascensão, inesperada na sua intensidade, dos partidos de matriz ecologista, o que não deixa de ser uma manifestação anti-sistema. Daí que, visto deste prisma, o voto verde não difira muito do voto nacionalista na sinalização do desconforto da população europeia com o status quo.

Do exposto resulta que a marca mais saliente destas eleições foi a vontade de uma ampla secção da população europeia de votar em causas com um forte pendor identitário, independentemente do rótulo ser nacionalismo, ecologia ou outro. Mas porquê esta renuncia massiva da moderação centrista dos partidos tradicionais em detrimento dos refegos ideologicamente mais carregados dos extremos da política europeia?

Acontece que o fervor ideológico é como o religioso: Tende a crescer em tempos de aflição, com a diferença que o primeiro desponta com tensão social, enquanto o segundo se inflama com infortúnio pessoal. Quando o chão foge as pessoas agarram-se a causas, que serão tanto mais radicais quanto maior for o medo e a insegurança.

Esta deriva extremista só mostra que o modelo de integração promovido pelo arco europeísta não consegue congregar os espíritos europeus.

Mas, porquê?

Porque o caminho trilhado de progressiva integração das principais áreas da política europeia, seja por via da união monetária, ou da união bancária e de capitais, ou ainda através da tentativa de uniformização da política de imigração é percecionada por muitos europeus como um fracasso causador de pauperização económica, insegurança e iniquidade social.

Para devolver a fé dos cidadãos no projeto europeu é fundamental identificar as raízes do descontentamento popular e a forma como este está a empurrar os europeus para os braços do populismo.

Por mais complexos e variados que sejam os motivos que explicam o mal-estar generalizado, o tronco comum dos problemas radica na erosão rápida e continuada da posição da Europa na ordem económica mundial que se tem vindo a forjar na esteira da globalização. Esta quebra de influência traduz-se numa incapacidade de afirmação da economia europeia no mundo e no aumento da sensação de insegurança interna e externa.

Daqui resulta uma panóplia de bandeiras que se poderiam hastear para recuperar o interesse dos cidadãos no projeto europeu e, simultaneamente esvaziar as bolhas populistas.

  1. Um desses vetores seria a criação de uma política comum de defesa adaptada aos desafios do século XXI, que permitisse a asserção do poder da Europa em domínios críticos, como a defesa das rotas comerciais vitais aos interesses das multinacionais europeias e a garantia de integridade territorial da fronteira a leste. Tal política poderia passar pelo reforço substancial do envolvimento e protagonismo da Europa na NATO ou, em alternativa, pela criação de um embrião de exército europeu. Em todo o caso, só um aumento significativo da capacidade militar pode oferecer as garantias mínimas de segurança física e económica à Europa.
  2. Outra área em que urge apostar é a tecnologia, sob pena de total cedência da hegemonia aos EUA e à China neste vetor absolutamente crítico para a prosperidade sustentada. Ainda na vertente económica é incompreensível o pouco que se percorreu na construção do mercado único dos serviços, estrutura que muito contribuiria para o fortalecimento da procura interna da Europa e, concomitantemente, para a eliminação da ridícula dependência da economia europeia dos seus mercados de exportação ou das políticas comerciais das outras potências.

Muitos outros exemplos de afirmação da Europa no mundo poderiam ser elencados. Mas o que é decisivo é que a Europa deixe de pensar à escala nacional e passe a atuar numa lógica continental, que é aquela em que trabalham as outras potências mundiais, tanto a ocidente como a oriente. Para isso é fundamental que o debate político sobre o futuro e os desígnios da Europa se torne verdadeiramente pan-europeu. Nesse sentido, as eleições do passado maio foram mais uma oportunidade perdida.

A alternativa à promoção de causas positivas e ambiciosas é a morte por asfixia do projeto europeu às mãos de populistas prenhos de causas divisivas altamente lesivas do futuro do povo europeu no seu todo.

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