Uma história de duas pessoas

Hoje vou falar de duas pessoas: Mário Centeno e Ricardo Reis.

Todos conhecem Mário Centeno. É um académico acima da média, mas longe do topo em Portugal (na última classificação dos investigadores com mais trabalho publicado, era o 111º). Fez carreira no Banco de Portugal e, depois de ver vetada uma promoção interna, aproximou-se do PS, tornando-se Ministro das Finanças. Apesar de ter algum bom trabalho académico, está longe de ter reconhecimento mundial enquanto académico. Foi ministro durante os tempos bons, permitindo-lhe fazer alguns brilharetes que lhe valeram reconhecimento enquanto político. Acabou a líder do Eurogrupo, onde não tem sido bem avaliado pela imprensa internacional. Demitiu-se do cargo no princípio de uma das maiores crises de sempre.

A maioria dos leitores não conhecerá Ricardo Reis. Ricardo Reis é português e um dos mais conceituados macroeconomistas do Mundo. Na mesma classificação em que Centeno é 111º, Ricardo Reis é 3º. Formado em Harvard, já deu aulas em três das universidades mais prestigiadas do Mundo: Princeton, Columbia e London School of Economics. Em Columbia foi mesmo um dos mais novos de sempre a atingir a posição de professor catedrático, aos 29 anos. Trabalhou ao lado de alguns prémios Nobel. Entre os vários reconhecimento que teve, foi considerado como o melhor economista do Mundo da sua geração por Glenn Ellison em 2013 e ganhou o prémio de jovem macroeconomista europeu em 2016. É um dos melhores macroeconomistas mundiais da actualidade. Qualquer aluno de economia do Mundo irá um dia ler aquilo que ele escreveu e as teorias que desenvolveu. Especializou-se no papel dos Bancos Centrais durante períodos de crise económica.

Em breve será escolhido o próximo governador do Banco de Portugal. Para a maioria das pessoas é uma escolha inconsequente, sem grande efeito nas suas vidas, mas a escolha que for feita será simbólica do país que somos e queremos ser.

A escolha que o governo fizer e o presidente aceitar, enviará um sinal claro sobre o país que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa querem ter. Pode ser escolhido o melhor macroeconomista português, um dos melhores do Mundo, alguém independente de partidos e dos círculos de poder em Portugal. Alguém respeitado pelo mérito do seu trabalho e pela sua inteligência. Se fosse ele o escolhido, seria enviado um sinal a todos os portugueses de que o mérito e o talento contam. Seria enviado um sinal a jovens talentosos que têm sucesso fora do país de que há espaço para eles em Portugal. Seria enviado um sinal a todos os portugueses de que o mérito pode ser recompensado, de que não é preciso fazerem parte de um partido ou terem amigos nos círculos de poder para verem o seu trabalho reconhecido.

Ou pode ser escolhido Centeno, com todos os problemas de conflito de interesses e independência do Banco de Portugal que viriam com essa escolha. Ao fazer essa escolha, estaremos a enviar um sinal claro de que a única forma de subir na vida no país é fazer favores a um partido político e entrar nos círculos de poder. Estaremos a enviar uma mensagem a todos os jovens talentosos que fazem sucesso fora do país que não devem voltar porque Portugal não lhes reconhecerá o mérito se não fizerem parte de um qualquer círculo de poder. Estaremos a dizer a todos os jovens universitários que, se querem ter sucesso na vida, não precisam de trabalhar, mas arranjar o cartão partidário certo.

Já defendi aqui que a escolha do próximo Governador do Banco de Portugal deveria ser por concurso internacional. Infelizmente, isso não irá acontecer. A escolha que será feita nos próximos dias entre Mário Centeno e alguém como Ricardo Reis pode parecer insignificante para o português comum, mas será simbólica do país que temos. Se a escolha recair sobre Centeno, não sobrará qualquer dúvida de que país António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa querem: um país miserável, pobre, onde oportunistas encontrarão sempre um lugar desde que façam favores ao poder instalado. Seria bom que por uma vez o sinal enviado fosse outro.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve o segundo o novo acordo ortográfico

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