Editorial

Uma OPA geopolítica com ‘energia’ limitada

A China lançou uma OPA para mandar na EDP, uma oferta geopolítica que tem um preço com 'pouca energia'. A caixa de pandora está aberta, mas António costa já disse de que lado está.

Um presidente, duas fações, uma OPA. Foi assim, exatamente no dia 5 de abril, data da assembleia-geral de acionistas que elegeu António Mexia, que o ECO descreveu o estado da EDP. Passados 36 dias, a China Three Gorges (CTG) deu o passo que faltava para acabar com a paz podre em que já tinha caído a elétrica e, sobretudo, sobre o poder de decisão de um acionista e de um Estado, o chinês, que ultrapassa, em muito, as fronteiras portuguesas. A Oferta Pública de Aquisição (OPA) da CTG sobre a EDP é, talvez, a primeira operação em Portugal com efetivo impacto económico, empresarial e, sobretudo, político mundial. É este o valor da elétrica, é a geopolítica a partir de Lisboa.

Como é evidente nos últimos anos, a China decidiu há muito trocar a força militar pela força dos negócios e é isso que lhe confere, hoje, o peso e influências internacionais. Esta OPA tem esse alcance, não se engane quem pensa que esta é uma operação puramente empresarial, não, é uma operação de Estado, é geopolítica nas suas diversas dimensões. E, ironicamente, o negócio da EDP em Portugal é o que menos interessa, é quase irrelevante, porque não há ninguém que invista dez mil milhões para vender energia em Portugal.

A OPA tem de passar o crivo de várias geografias, e esse é o seu principal risco, e para a própria empresa, diga-se, se for bem sucedida. Porquê? Os chineses prometem continuar a fazer crescer a empresa, mas a OPA tem de passar por autorizações nos EUA e na Comissão Europeia e, se passar as previsíveis exigências dos reguladores desses países perante uma nacionalização chinesa, haverá remédios que vão pôr em causa a empresa tal como a conhecemos. Será outra EDP, nacionalizada pela China, e isso é outro dado relevante nesta operação. E é também por isso que é estranho ouvir o primeiro-ministro António Costa, tão afoito, a apoiar declaradamente e de forma tão precipitada uma operação cujos desenvolvimentos desconhece totalmente. Ainda antes sequer de se conhecer o anúncio preliminar, Costa ‘meteu’ o governo e o Estado, que não é acionista, num negócio de uma empresa privada. Já sabemos que, para o Governo, a EDP pode ser controlada a 100% por outro Estado, e que Estado, como chamava a atenção o Financial Times logo após ser conhecida a OPA.

Os chineses já controlavam quase 29% do capital e, agora, propõem-se comprar as ações necessárias para controlar pelo menos 50% das ações mais uma da elétrica, além de exigirem, claro, a chamada desblindagem de estatutos, isto é, o limite de qualquer acionista a votar apenas com 25% do capital. O preço é curto, 3,26 euros por ação, menos do que o que pagaram em 2011 quando entraram na EDP. A China tem o poder de veto para evitar ofertas de concorrentes, e por isso a EDP ainda não tinha entrada no movimento de fusões na Europa. Mas não tem o poder de impor uma estratégia, e é isso que os chineses querem mudar com esta oferta.

Ao lançarem uma OPA, sobretudo com este baixo preço, abriram uma caixa de pandora, a que o primeiro-ministro deu o seu aval. Por isso, é certo, haverá outras ofertas, e podemos já enumerar os principais candidatos: A italiana Enel/Endesa, a francesa Engie e a espanhola Gas Natural/Fenosa. A partir de agora tudo será diferente qualquer que seja o seu desfecho. E é provável antecipar que… o menos provável é a manutenção de uma empresa independente, e só dependente de si. Este é o pior ponto desta OPA.

Uma última nota para António Mexia: Até agora, havia duas fações na EDP, e António Mexia não estava, nem está, do lado dos chineses, ou, no mínimo, nunca aceitou a supremacia de um acionista sobre os outros. Mexia foi reconduzido recentemente em assembleia geral de acionistas, com o voto dos chineses, não propriamente por convicção, mas por interesse… e necessidade, para evitar ruturas prematuras, antes do seu próprio calendário.

Agora, o gestor vai ter uma tarefa mais complexa do que aquela que teve quando foi feita a privatização. Já é certo que vai defender que o preço é baixo, e que a OPA é ‘não solicitada’. Se a OPA for bem-sucedida, coisa que só se deverá saber no primeiro semestre de 2019, Mexia estará de saída, não quererá ficar como presidente executivo de uma empresa pública chinesa, e os chineses, se vieram a mandar, também não o vão querer. Mas apesar da sempre presente ‘fulanização’ das discussões em Portugal, Mexia não é o ponto central desta OPA. Será relevante no seu desfecho, porque não vai ficar parado, e vai ser claro de que lado estará perante as ofertas concretas, esta e outras? Sim, mas o que está em causa ultrapassa-o, a ele, e até ao próprio governo. Já não há retorno.

 

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