Vermelho, Azul, América

A verdade política não existe porque tem de servir os resultados políticos; a mentira política não existe porque tem de controlar os riscos associados ao negócio da política.

Bem-vindos à América. Trump promete uma América Grande. A campanha de Trump parece uma tournée de uma estrela de Las Vegas. Os comícios são celebrações políticas que tocam a performance de um comediante. O discurso de Trump viaja à velocidade alucinante do crack, com cores psicadélicas evaporadas do LSD, fragmentos de políticas cruzados com difamações e insultos. Com um Ferrari vermelho no olhar, Trump ocupa o centro da cidade de um far west imaginário que persiste no coração da América. Vende as ideias e as políticas com um discurso típico de uma estrela do karaoke ao ritmo estridente de uma faixa do mais suburbano rock and roll. Trump é a imagem do homem de negócios que faz política como quem vende arranha-céus a preço especulativo. A verdade política não existe porque tem de servir os resultados políticos; a mentira política não existe porque tem de controlar os riscos associados ao negócio da política. Para Trump, a política é um negócio onde se deve investir o mínimo, cobrar o máximo e exibir a nova riqueza política nas cores de um avião ou na morada da Casa Branca.

As multidões que enchem os comícios representam a América esquecida, branca, pobre, classe operária, onde o glamour de Hollywood é uma imagem permanente nos canais do cabo e nas distantes elites de Washington. Embora o rock and roll venha do palco, sente-se na atmosfera dos comícios a transpiração de uma América que perdeu com a Globalização, que não entende a tolerância para com a China, que não percebe por que morrem os filhos da América no Afeganistão, que não aceita que as comunidades rurais se fechem no desemprego, no esquecimento, na terra dos sonhos onde o sonho americano vem morrer às suas portas. Os sons da audiência pertencem às planícies marcadas pelas silhuetas das fábricas fechadas, uma cintura de ferrugem na paisagem da planície americana e cuja banda sonora se ouve bem ao longe saída de um gira-discos onde os tons cinzentos de uma canção de Bruce Springsteen empurram o tempo na direcção do vento. Trump é um Presidente anti-sistema no coração do establishment da América.

Biden promete lutar pela alma da América. Num tom frágil e de óculos ray-ban ao estilo de um piloto, o candidato fala para uma plateia controlada, muitas vezes limitada a activistas do Partido Democrático e a beneméritos da campanha Democrata. Biden é um veterano que tem um entendimento moderado da política, bem ao estilo clássico e tradicionalista de Washington. No entanto, é um moderado que está no centro da corrida eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos e no epicentro de uma guerra cultural entre Liberais e Conservadores. Num comício recente, Biden teve como banda sonora uma versão suave e acústica de Jon Bon Jovi, as melodias pop-rock de uma América urbana, rica, emanações do sucesso e da celebração do sonho americano. É visível o esforço do candidato para ocupar o centro político sem perder as franjas radicais e mais extremas do Partido Democrático. A cultura política e o flirt com as ideias socialistas ardem no Partido Democrático como um motim racial no labirinto americano das ruas sem nome. A quadratura do círculo entre militantes Antifa e a classe média nos seus coloridos pólos Ralph Lauren é uma imagem retirada de uma série da NetFlix. A tolerância é provisória e temporária apenas justificada pela possibilidade sinistra de imaginar o rosto de Trump esculpido nas escarpas do Monte Rushmore.

Definitivamente, entre a Grandeza e a Alma, a América está a mudar e vai mudar seja qual for o resultado eleitoral. A Nação Indispensável parece querer dispensar este estatuto se é que já não o colocou no léxico de um passado histórico. A República Americana, que parecia indestrutível, debate-se nestas eleições com o delírio político que toca a desagregação. Lembro a ideia da separação entre dois Países, a denominada “Cascadia” e a nostálgica celebração da “República do Texas”. Lembro a possibilidade da manutenção da Unidade Federal rasgada pelo conflito político tribal, unidos na desunião, na discórdia, na acrimónia, no ódio. Lembro a possibilidade de uma convenção que mantenha a União da América, mas não o espírito da América, uma condição política em que a aparência de uma paz interna apenas sirva para presidir à lenta degradação, ao persistente declínio da América até se transformar num ciclope político irrelevante e decadente. A política também contempla a especulação. Se Biden ganhar as eleições para Presidente, a América enfrentará uma crise constitucional em câmara lenta. Sem o domínio do Senado, com um Supremo Tribunal envolvido em togas Republicanas, só uma urgente e radical intervenção contra o espírito da Constituição poderá desbloquear os caminhos políticos da América. Em alternativa, se os resultados eleitorais forem contestados por Trump, o que parece ser uma certeza em caso de não ser reeleito Presidente, a América irá experimentar uma explosiva crise constitucional bem ao estilo de uma Nação do Terceiro Mundo.

Imagino uma longa recta numa estrada perdida no hinterland da América. Uma pickup com as cores da bandeira americana viaja em direcção ao Sol poente ao som de uma canção que aquece o deserto: This land is your land and this land is my land, This land was made for you and me.

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